12.6.11

Os Maias


I - Recorda o estudo de Os Maias, concretamente o relacionamento de Carlos e Maria Eduarda.

1. Assinala se as afirmações seguintes são verdadeiras ou falsas e corrige as falsas.


AFIRMAÇÕES

1. Após a mudança de Maria para a Toca, todos os dias esta era visitada por Carlos.

2. Para evitar as viagens, Carlos passou a dormir no quiosque, que, para o efeito, fora parcamente mobilado.

3. Aconselhado por Craft, que regressara de Santa Olávia, o jovem médico decidiu visitar o avô na sua quinta, em Resende.

4. Antes da sua partida para o Douro, Carlos convidou Maria Eduarda para jantar no Grémio Literário.

5. Quando visitava o Ramalhete, defronte de um quadro de Pedro da Maia, Maria Eduarda afirma que Carlos se parecia muito com seu pai.

6. Após o regresso de Carlos de Santa Olávia, Castro Comes procura-o para lhe comunicar que regressara do Brasil e o convidava para jantar.

7. Através do brasileiro, o jovem lisboeta tivera conhecimento de que a mulher que amava não era Maria Eduarda Castro Gomes, mas Maria Eduarda Monforte.

8. Irritado com esta revelação, Carlos pensou escrever-lhe a cortar relações, mas desistiu preferindo um corte abrupto, sem uma explicação sequer.

9. Por sugestão de Ega, os dois amigos concluem que foi Dâmaso quem escreveu a carta anónima a Castro Gomes a denunciar a situação.

II - Lê, agora, com atenção o seguinte texto.

Mas nessa noite teve o regozijo de encontrar aliados. Craft não admitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e da sociedade estatelada nua num livro. A arte era uma idealização! Bem; então que mostrasse os tipos superiores duma humanidade aperfeiçoada, as formas mais belas do viver e do sentir... Ega, horrorizado apertava as mãos na cabeça - quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pre­tensiosa estética deduzida duma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimen­talismo, do positivismo, de Stuart Mil e de Darwin, a propósito duma lavadeira que dorme com um carpinteiro!

Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do realismo estava em ser ainda pouco científico, inventar enredos, criar dramas, abandonar-se à fantasia literária! a forma pura da arte naturalista devia ser a monografia, o estudo seco dum tipo, dum vício, duma paixão, tal qual como se se tratasse dum caso patológico, sem pitoresco e sem estilo!...

- Isso é absurdo, dizia Carlos, os carateres só se podem manifestar pela ação…

- E a obra de arte, acrescentou Craft, vive apenas pela forma...

Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessárias tantas filosofias.

- Vocês estão gastando cera com ruins defuntos, filhos. O realismo critica-se deste modo: mão no nariz! Eu quando vejo um desses livros, enfrasco-me logo em água-de-colónia. Não dis­cutamos o excremento.

- Sole normande? perguntou-lhe o criado, adiantando a travessa.

Ega ia fulminá-lo. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e superior a estas controvérsias de literaturas, calou-se; ocupou-se só dele, quis saber que tal ele achava aquele Si. Emilion; e, quando o viu confortavelmente servido de sole normande, lançou com grande alarde de interesse esta pergunta:

- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?

E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...

O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o

empréstimo tinha de se realizar "absolutamente". Os empréstimos em Portugal constituíam hoje

uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocu-

pação mesmo dos ministérios era esta - "cobrar o imposto e fazer o empréstimo". E assim se havia

de continuar...

Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente para a "bancarrota".

- Num galopezinho muito seguro e muito a direito - disse o Cohen, sorrindo. Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A "bancarrota" é inevitável: é como quem faz uma soma...

Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, nem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as pala­vras.

- A "bancarrota" é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava o Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...

Ega gritou sofregamente pela "receita". Simplesmente isto: manter uma agitação revolucio­nária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, Londres e do Rio de janeiro; assustar os mer­cados, assustar o brasileiro, e a "bancarrota" estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.

Eça de Queirós, Os Maias, Cap. VI

28.ª edição, s/data, Edições do Brasil, Lisboa

1. Identifica o episódio a que pertence este excerto, inserindo-o numa das intrigas de Os Malas.

1.1. Comenta a sua importância para o desenvolvimento da narrativa.

2. Diferentes visões da corrente literária "Naturalismo" são expostas neste excerto.

2.1. Enuncia as principais diferenças das perspetivas apresentadas.

3. "Ega ia fulminá-lo."

3.1. Indica o alvo da fúria de Ega e os motivos que a justificam.

3.2. Explicita os motivos que o levam a desistir das suas intenções.

4. Expõe sucintamente a situação financeira do país.

5. Comenta as diferentes posturas - de Carlos e Cohen - em relação à situação económica de Portugal.

6. "Olha que brincadeira, hem!"

6.1. Avança uma interpretação para esta exclamação de Ega.

7. Indica três marcas do estilo queirosiano, ilustrando-as com segmentos textuais.

8. Na frase "... estatelada nua num livro " o termo sublinhado pode ser substituído por...

a) discreta.

b) disfarçada.

c) exposta.

d) aliviada.

9. Na frase: "... Cohen dava um sorriso enfastiado...", o significado do termo sublinhado opõe-se a...

a) entediado.

b) aborrecido.

c) deselegante.

d) satisfeito.