3.6.11

Já escrevi isto amanhã


Escrevo esta crónica num caderno pautado, eu que nunca escrevo em papel pautado porque me lembra a escola, e volto a ter uma caligrafia infantil. Era uma escola pequena, a minha, com um professor tirânico que puxava pelos do nariz: ramal da Beira Baixa, afluentes da margem esquerda do Tejo, o nome predicativo do sujeito.
- Diz o nome predicativo do sujeito, idiota
e nós lá gaguejávamos o nome predicativo do sujeito, cheios de dúvidas, a hesitar. O professor escolhia um pelo, desprezando-nos
- Nunca hás-de ser ninguém na vida
e o facto do nome predicativo do sujeito me impedir de ser alguém na vida preocupava-me. Que raio de importância tão grande o nome predicativo do sujeito tem? Ou o ramal da Beira Baixa? Ou os afluentes da margem esquerda do Tejo? Meu Deus a quantidade de coisas que existem entre mim e o meu futuro. (...)
O professor
- Estás a olhar para ontem, idiota?
E é verdade, estou a olhar para ontem, sempre olhei para ontem. Até o amanhã é ontem às vezes. Charlie Parker1 interrompeu uma vez uma gravação, atirando com o saxofone, a gritar
- Já toquei isto amanhã
e ninguém foi capaz de convencê-lo a continuar. Como eu o compreendo, como às vezes sinto
- Já escrevi isto amanhã.
e rasgo tudo. Um trabalho difícil, quase tão difícil como viver. Acho que não sei viver. Acho que não sei viver? Acho que não sei viver como os outros vivem. Que dias os meus, repletos de surpresas, de mistérios. De espantos. Sou um saloio: não há montra de loja que não me encante, sobretudo as lojinhas minúsculas de certos bairros, mercearias, roupas, brinquedos. Apetece-me logo comprar vassouras, aipo, um macaco de corda, a camisa mais feia que descobrir na montra. A beleza das coisas feias fascina-me. O seu ar de desamparo, coitadas. A cinquenta metros da casa dos meus pais existia um estabelecimento de vestidos e artigos correlativos chamado Marijú. O Paraíso deve ser no género da Marijú, com empregadas a cheirarem bem que me faziam cócegas na alma. Não se calcula o que a Marijú alegrou a minha infância. A Marijú, do meu ponto de vista, era o centro do quarteirão. Para indignação minha a minha mãe considerava a Marijú o supra-sumo do horrível, a ignorante. Em matéria de gosto os meus pais, aliás, deixavam imenso a desejar: detestavam quadros com gatinhos a saírem de botas velhas, palhaços de porcelana a chorarem, dálmatas cromados em tamanho natural. Onde se viu tanta cegueira? Serras do sistema galaico-duriense: Peneda, Soajo, Gerez, Larouco, Falperra, etc. Ficou tudo na minha cabeça graças ao medo do professor, conhecimentos utilíssimos, até ele apreciava a Marijú: tenho de concordar que em espírito artístico superava os meus pais. O problema era o nome predicativo do sujeito. Sem o nome predicativo do sujeito a minha infância teria sido perfeita. Pretéritos, pronomes, tabuada. E os olhos de Charlie Parker tristíssimos nas fotografias. Escrever como ele toca. Vá, António, levanta-te do papel com as palavras: quem disse que não eras capaz, és capaz, levanta-te do papel com as palavras. Fecha os olhos e elas saem sozinhas. As palavras são notas, repara.
Não penses em nada, abandona-te. O mundo inteiro está dentro de ti. (...)

António Lobo Antunes, in Visão, 15 de Dezembro de 2007


Nota:
Charles Parker (1920-1955): saxofonista americano de Jazz.



I


1. Indica o facto do presente que provoca no autor as recordações que partilha com o leitor.

2. A sua memória leva-o a percorrer dois espaços do seu passado.

2.1. Identifica-os.

2.2. Diz, por palavras tuas, o que pensa Lobo Antunes das aprendizagens que efetuava na escola primária.

2.3. Comenta o tipo de relação que o professor tinha com os seus alunos no tempo evocado por Lobo Antunes, comparando-a com a dos tempos de hoje.

3. A recordação da pergunta do professor "- Estás a olhar para ontem, idiota?" desencadeia no autor uma reflexão.

3.1. Adianta uma explicação para a atitude tomada por Charlie Parker.

3.2. Explica por que razão o autor do texto se identifica com o músico.

4. A frase que constitui o título do texto - "Já escrevi isto amanhã" - não é coerente.

4.1. Explica porquê.

5. Relê o segundo grande momento do texto (a partir de "Um trabalho difícil...").

5.1. Explica a afirmação: "Sou um saloio".

5.2. Explicita a relação estabelecida entre a loja que marcou a infância de Lobo Antunes e o seu professor da escola primária.

5.3. Sinaliza a passagem em que o autor retoma todos os assuntos referidos anterior­mente no texto.

5.4. Esclarece o sentimento subjacente à frase: "Escrever como ele toca. "

6. Salienta o objetivo das palavras que o autor dirige a si próprio nos últimos cinco períodos do texto.

6.1. O tema central deste texto é:

a. a forma como se ensinava no tempo em que o autor era criança.

b. a dificuldade da arte de escrever.

c. a importância das pequenas lojas de bairro na nossa vida.




II


1. Relê a seguinte passagem do texto:

"Escrevo esta crónica num caderno pautado, eu que nunca escrevo em papel pau­tado porque me lembra a escola, e volto a ter uma caligrafia infantil. Era uma escola pequena, a minha, com um professor tirânico que puxava pelos do nariz: ramal da Beira Baixa, afluentes da margem esquerda do Tejo, o nome predicativo do sujeito.

- Diz o nome predicativo do sujeito, idiota e nós lá gaguejávamos o nome predicativo do sujeito, cheios de dúvidas, a hesitar."

1.1. Explica de que forma se verifica, aqui, a progressão temática.

1.2. Relaciona essa progressão com os tempos verbais utilizados.

2. Considerando que a temática central do texto é a dificuldade da escrita, assinala as passagens em que a recorrência do tema assegura a continuidade semântica.

3. Retoma o seguinte momento do texto:

"O professor

- Estás a olhar para ontem, idiota?

E é verdade, estou a olhar para ontem, sempre olhei para ontem. Até o amanhã é ontem às vezes. Charlie Parker interrompeu uma vez uma gravação, atirando com o saxofone, a gritar

- Já toquei isto amanhã

e ninguém foi capaz de convencê-lo a continuar. Como eu o compreendo, como às vezes sinto

- Já escrevi isto amanhã."

3.1. Explicita a função desta digressão

4. "Charlie Parker interrompeu uma vez uma gravação, atirando com o saxofone, a gritar - Já toquei isto amanhã"

4.1. Identifica o verbo introdutor de relato de discurso presente nesta passagem.

4.2. Passa para o discurso indireto a frase proferida por Charlie Parker.

5. Lê atentamente o diálogo que se segue e redige introduções para as diversas falas, selecionando verbos introdutores* que deem conta da intencionalidade comunica­tiva dos interlocutores.

Progressão e continuidade

Denomina-se progressão (temática) a introdução da informação nova que faz evoluir o texto. A continuidade (semântica) implica a recorrência da informação que assegura a unidade do texto.