28.6.11

Aquele sonho





Todos os dias, depois da pesca, ou da vadiagem, ou dos biscates, aí ia ele, contemplar os carros de barriga aberta, cheios de parafusos e tubos, tão vivos e quentes que pareciam uma pessoa a fazer operação.
Encostava-se à porta, a olhar, a olhar... (...)
Voltava todos os dias. Encostava-se à porta como se não tivesse chegado, metade dentro, metade fora; metade no frio, metade naquele calor que cheirava a óleo, gasolina e máquinas.
Logo à entrada um grande carro brilhante e vermelho, com o capot levantado: espreitavam-lhe o coração. Sim, que os automóveis também têm coração, o que é que julgam? Coração ou motor - é tudo igual. O que sinto aqui no peito, a bater, a bater mal chego a esta oficina não é também um motor? O motor que me faz andar, estar triste como hoje estou e, às vezes, quando vejo as gaivotas, me põe asas a voar cá dentro.
É um motor-coração, pois!
E estava o Gaivota nestas conversas para dentro, quando o António Carlos veio lá do fundo da oficina, a limpar as mãos a um bocado de desperdício, ar de malandrete, o fato-macaco mais nódoas que ganga.
- Que estás aqui a fazer, pá? Não sabes que o trabalho nesta oficina começa às oito e meia? Isto são horas de um aprendiz chegar ao serviço?
E riu-se. Ria-se com a cara enfarruscada. E limpava as mãos. E olhava para ele nos olhos!
- Que estás a olhar para mim? Achas-me com cara de gaivota? Não ouviste o que te disse? Olha que te desconto no fim do mês...
- Está a fazer pouco de mim?
- Estou a fazer pouco de ti? Tu é que me estás a gozar, aí, feito pateta, de cana de pesca na mão e lata de minhocas. Onde já se viu um mecânico precisar de lata de minhocas?
As gargalhadas soaram pela oficina.

A (...)
Daí a pouco tocava para o almoço.
- Começas bem, meu malandro! Ainda agora entraste ao serviço e já vais para o almoço. Com essa pressa chegas a patrão não tarda!
- Hoje comes com a gente, para festejar! A oficina era uma festa de calor e amizade.

B (...)
Saíram todos. Sem pressa. As sapatilhas escorregavam-lhe nas pedras húmidas da rua e tinha a impressão que toda a gente o olhava, que usava um fato nunca visto. (...)
Lisboa, do outro lado do Tejo, acenava com um girassol no alto do Castelo.

Maria Rosa Colaço, Gaivota, Ed. Caminho


Notas:
biscates: (ou biscatos) pequenos trabalhos.
desperdício: restos que se perdem num processo de fabrico.


1. Qual é o nome próprio que o pronome pessoal "ele" usado na primeira linha do texto está a referenciar?

2. No terceiro parágrafo, detecta dois pares de palavras antónimas.

3. O quarto parágrafo retrata as "conversos para dentro".

3.1. Que nome se dá a este tipo de discurso?

4. O que levou o rapaz a fazer a pergunta "Está a fazer pouco de mim?".

5. Refere qual foi, para ti, a atitude mais humana ao longo do texto e justifica.

6. Estes três excertos foram retirados do texto original. Cada um corresponde a uma das letras que sinalizam os cortes efectuados: A, B e C. Faz corresponder A e B aos respectivos excertos e intitula-os, escolhendo entre: Ansiedade e Euforia.

C: Paz e esperança

Cheirava a bolos e havia música no ar. Música de Natal!

E era como se ele, Gaivota, levasse junto à pele um sino que cantava ou uma estrela acesa ou o mundo todo com homens irmãos e gente feliz.

No alto, lá muito, muito em cima, uma gaivota pairava.

Branca. Muito Branca.

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Estava muito quente, ali. Mas era um calor que não arrefecia. Tinha traba­lho! Tinha amigos novos! Apetecia-lhe abraçar os automóveis, as portas, o vento da rua, tinha a impressão de que lhe bastaria estender os braços e já a ponte não seria necessária. Ele chegava para ligar Cacilhas à outra margem.

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O seu motor-coração batia-lhe tanto, com tanta força, tanta força que teve medo que lhe saltasse o peito. Segurou-o com a mão para lhe aguentar o desassossego. Era uma vergonha se o coração lhe fugisse e ali ficasse, no chão da oficina, todo cheio de óleo e desperdício.