9.5.11

Traço de União

Atenta no texto seguinte.



Português no Brasil, brasileiro em Portugal, o emigrante fica sem pátria, tendo duas (...) Mas nem no novo mundo ele consegue ser insensível ao enleio e à pressão do ambiente, nem, no velho, indiferente aos reparos dum classicismo rotineiro.
E, como bola de bilhar batida por jogadores implacáveis, o pobre emigrado corre de tabela em tabela sem encontrar sossego. Acresce ainda que na maior parte dos casos o coitado nem sequer compreende o seu mal. É só porque não consegue um repouso duradoiro, esteja de que lado estiver, que se põe a cruzar as águas do mar e se transforma na lançadeira dum tear de monótonos itinerários. Inculto quase sempre, incapaz, portanto, de diagnosticar a causa da febre que o devora, fala de interesses lesados, de sócios ladrões, de comodidades indispensáveis, queixa-se do calor e do frio, e abala sem suspeitar sequer que é um Sísifo da planura oceânica, condenado a empurrar eternamente a alma de Lisboa ao Rio, e vice-versa. Ah! se ele pudesse secar o lago e unir as margens! Se as duas pátrias se ligassem como metades dum fruto! Em ambas mourejou, amou, procriou e sofreu. Em ambas estão sepulturas à espera do seu corpo. O caminho-de-ferro que vai a Minas ou a Trás-os-Montes tem calhas de aço por onde rola, com a mesma pressa, ao encontro de diversos mas igualmente fortes vincilhos, o seu coração aflito. A aldeia da alta lombada onde nasceu e o rancho sertanejo onde morou são estremas dos sete palmos da sua humanidade. Vivo, será sempre desses dois pólos; morto, terá o cadáver ausente de um deles.

Miguel Torga, Traço de União, Edição do autor



1. Constrói um argumento que justifique a primeira afirmação do texto.
Num lado…
no outro…

2. Transcreve as frases do texto que demonstram que o emigrante brasileiro passa a vida num vaivém incessante entre os dois países.