28.5.11

Os Namorados de Amância

Foi por estas alturas que se apresentou Domigos, o primeiro pretendente sério de Amância. Demasiado sério, ai!
Demasiado sério: Era um rapaz dos seus vinte e cinco anos, moreno e simpático, talvez já um pouco pesado. Aliás de boa figura, mas vulgar, sem atractivos especiais para uma bela rapariga moderna. Filho único do mais bem afreguesado ourives da terra, já empregado na loja que viria a herdar - toda a gente achou que era óptimo partido para a filha de um modesto amanuense. Os próprios pais de Amância o acharam; mas sem se atreverem a tentar qualquer pressão sobre o espírito da filha. Porque logo a filha revelou espíritos por de mais alevantados na filha de um modesto amanuense, declarando não corresponder Domingos ao seu «ideal». Além de que não estava disposta a casar tão nova! Queria gozar a sua juventude, e, sem se comprometer, recolher incenso dos vários turíbulos... Ora Domingos pretendia casar-se quanto antes. Há mais de um ano que Amância dera pela sua paixão. Há mais de um ano que ria, simultaneamente lisonjeada e sempre um tanto desdenhosa, ao cruzar procurando os seus, onde quer que se encontrassem, esses olhos leais e súplices de tímido... Não era caso para rir! Demasiado sério, talvez já um pouco pesado, muito apegado ao trabalho, muito metido consigo como quase todos os tímidos e surdos (pois também era um pouco duro de ouvido), Domingos podia muito bem saber amar com uma energia e uma delicadeza cada vez mais raras. Por isso mesmo, porém, que futuro poderia esperar a sua futura mulher? O de uma dona de casa vivendo para o marido, para os filhos, para os cuidados domésticos. Adeus liberdade de viver como a borboleta, espanejando os seus brilhos ao ar e ao sol! Mesmo que Domingos lhe agradara (e não era bem o caso), muito dificilmente pudera resolver-se Amância a aceitar tão nova a prisão dos seus braços honrados. Assim Amância ria. Não era caso para rir! Mas quem poderia zangar-se com o riso de Amância? Não mostrava ela tão lindos dentes, iguais e pequeninos? E não era ele natural, nessa deliciosa boca suculenta, como o colorido numa flor ou a frescura na água de uma fonte?
Por fim, a instâncias do enamorado, teve o pai de Amância de dar uma resposta: que a filha ainda era muito nova, e não queria sujeitar-se tão cedo aos cuidados do matrimónio. Agradecia a honra que lhe era feita, reconhecia as excelentes qualidades do seu pretendente, desejava-lhe todas as felicidades com aqueloutra que não teria dificuldade em achar... O amanuense havia estudado este pequeno discurso. Domingos fez-se, primeiro, muito ver-melho; e cravara no seu interlocutor uns olhos vidrados, fixos, que pareciam examiná-lo e em verdade o não viam. Depois, ficou pálido como um cadáver. Por fim respondeu, com uma voz presa e baixa, descendo os olhos sobre as mãos que tremiam torturando-se uma na outra:
-Diga-lhe que esperarei. Ela há-de cansar-se de se divertir
O amanuense não gostou desta insinuação.
- Pois que espere! - disse Amância quase desabridamente, quando o pai lhe transmitiu o recado. E continuou a rir com uns e outros, recolhendo incenso de diversos turíbulos.

José Régio, «Os Namorados de Amância»,
in Contos (excerto)



I

1. «Demasiado sério», assim é apresentado «o primeiro pretendente sério de Amância».
1.1 Faz o retrato de Domingos.
1.2 Refere o processo de caracterização que predomina na sua descrição. Exemplifica.

2. Refere a opinião de «toda a gente» e dos pais de Amância sobre este pretendente.
2.1 Apresenta a opinião da jovem, relativamente ao filho do «ourives da terra».

3. Indica o sentimento que tinha Domingos para com a rapariga e como se revelava.

4. Clarifica o que significava o casamento para Amância.

5. «Assim Amância ria. Não era caso para rir!»
5.1 Tendo em conta a expressão sublinhada, classifica o narrador desta história:
5.1.1 quanto à presença;
5.1.2 quanto à posição.
5.2 Apresenta outro exemplo em que esteja presente a opinião do narrador.

6. Identifica os argumentos utilizados pelo pai de Amância, para recusar o pedido de casamento de Domingos.
6.1 Indica as diferentes reacções do rapaz.
6.2 Identifica a figura de estilo presente em «com uma voz presa e baixa» e refere a sua expressividade.
6.3 Mostra como a resposta final do jovem é sinónimo de uma forte paixão.

7. O último parágrafo apresenta um traço caracterizador de Amância que perdurará no futuro. Identifica-o.


II

1. Transcreve do texto três co-referentes do nome Domingos.

2. Atenta nas frases:
a) «Diga-lhe que esperarei.»
b) «Pois que espere!»
2.1 Classifica os actos de fala ou ilocutórios presentes nas mesmas e esclarece a sua inten-cionalidade comunicativa.

3. «Era um rapaz dos seus vinte e cinco anos, moreno e simpático, talvez já um pouco pesado.»
3.1 Integra os vocábulos sublinhados na classe e subclasse a que pertencem.

4. Classifica as seguintes orações:
a) «que era óptimo partido para a filha de um modesto amanuense»
b) «mas sem se atreverem»
c) «Porque logo a filha revelou espíritos por de mais alevantados...»
4.1 Refere as funções sintácticas de:
a) «óptimo partido»;
b) «logo»;
c) «a filha»;
d) «revelou espíritos».


III

Num texto narrativo, de cento e cinquenta a duzentas palavras, imagina um final feliz para esta história de amor.