15.5.11

O príncipe que casou com uma rã



Era uma vez um rei que tinha três filhos em idade de casar. Para não surgirem rivalidades sobre a escolha das três noivas, disse:
– Lançai com a funda1 o mais longe que puderdes: onde cair a pedra tomareis mulher.
Os três filhos pegaram nas fundas e atiraram.
O mais velho atirou e a pedra foi parar ao teto de um forno; e ele ficou com a padeira. O segundo atirou e a pedra chegou à casa de uma tecedeira. Ao mais pequeno a pedra caiu num fosso.
Assim que atiravam, cada um corria a levar o anel à noiva. Ao mais velho deparou-se uma jovem bela e tenra como uma fogaça2, o do meio encontrou uma rapariga pálida, fina como um fio, e o mais pequeno procurou, procurou naquele fosso e só achou uma rã.
Tornaram para junto do rei a contar como eram as suas noivas.
– Agora – disse o rei –, quem tiver a noiva melhor herdará o reino.
Façamos as provas.
E deu a cada um cânhamo3 para lho trazerem daí a três dias fiado pelas noivas, para ver quem fiava melhor.
Os filhos foram ter com as noivas e recomendaram que fiassem na perfeição; e o mais pequeno, muito aflito com aquele cânhamo na mão, foi à beira do fosso e pôs-se a chamar:
– Rã, rã!
– Quem me chama?
– O teu amor que pouco te ama.
– Se não me ama amará
Um dia que bela me verá.

E a rã saltou para fora da água em cima de uma folha. O filho do rei deu-lhe o cânhamo e disse que voltaria para o levar todo fiado daí a três dias.
Passados três dias os irmãos mais velhos correram todos ansiosos à padeira e à tecedeira para buscar o cânhamo. A padeira fizera um bom trabalho, mas a tecedeira – era o seu ofício – fiara-o que parecia seda. E o mais pequeno? Foi ao fosso:
– Rã, rã!
Saltou para uma folha e tinha na boca uma noz. Ele tinha uma certa vergonha de se apresentar ao pai com uma noz enquanto os irmãos levavam o cânhamo fiado; mas ganhou coragem e foi. O rei, que já tinha visto do avesso e do direito o trabalho da padeira e da tecedeira, abriu a noz do mais pequeno, e entretanto os irmãos faziam chacota4. Ao abrir-se a noz, saiu uma tela tão fina que parecia teia de aranha, e puxa, puxa, desdobra, desdobra, nunca mais acabava, e já toda a sala do trono estava cheia.
– Mas esta tela nunca mais acaba! – disse o rei, e mal pronunciou estas palavras a tela acabou.
O pai, à ideia de uma rã se tornar rainha, não se resignava. Tinham nascido três crias à sua cadela de caça preferida, e deu-as aos três filhos:
– Levai-os às vossas noivas e voltareis a buscá-los daqui a um mês: quem a tiver criado melhor será rainha.
Passado um mês viu-se que o cão da padeira se tornara um molosso5 enorme, porque o pão não lhe faltara; o da tecedeira, com a comida mais apertada, tornara-se um famélico mastim. O mais pequeno chegou com uma caixinha; o rei abriu a caixinha e saiu um pequeno cão-d´água todo enfeitado, penteado, perfumado, que se punha em pé nas patas traseiras e sabia fazer os exercícios militares e fazer de conta.
O rei disse:
– Não há dúvida; será rei o meu filho mais novo e a rã será rainha.
Marcaram-se as bodas, os três irmãos no mesmo dia. Os irmãos mais velhos foram buscar as noivas com coches floridos puxados por quatro cavalos, e as noivas vieram todas carregadas de plumas e de joias.
O mais pequeno foi ao fosso, e a rã esperava-o numa carruagem feita de uma folha de figueira puxada por quatro caracóis. Começaram a andar:
ele ia à frente, e os caracóis seguiam-no puxando a folha com a rã. De vez em quando parava à espera, e uma vez até adormeceu. Quando acordou, tinha parado à sua frente um coche de ouro, forrado a veludo, com dois cavalos brancos e lá dentro estava uma rapariga bela como o Sol com um vestido verde-esmeralda.
– Quem sois? – perguntou o filho mais novo.
– Sou a rã! – E como ele não queria acreditar, a rapariga abriu um cofre onde estava a folha de figueira, a pele de rã e quatro cascas de caracol. – Eu era uma princesa transformada em rã, e só se um filho de um rei consentisse em casar comigo, sem saber se eu era bela, é que retomaria a forma humana.
O rei ficou todo contente e aos filhos mais velhos, que se roíam de inveja, disse que quem não era sequer capaz de escolher mulher não merecia a coroa. Rei e rainha foram o mais pequeno e a sua esposa.

Italo Calvino, Fábulas e Contos
(texto adaptado)


VOCABULÁRIO
1 funda – arma de arremesso, fisga. .
2 fogaça – pão doce.
3 cânhamo – planta, fibra.
4 chacota – troça.
5 molosso –cão forte.



Responde aos itens que se seguem, de acordo com as orientações que te são dadas.

1. As afirmações de a) a g) referem-se a informações contidas no texto.
Escreve a sequência de letras que corresponde à ordem dos acontecimentos narrados.
Começa a sequência pela letra d).
a) O filho mais pequeno lançou uma pedra que foi parar a um fosso.
b) A princesa provou ao noivo que era a rã.
c) Os irmãos mais velhos ridicularizaram o mais novo, no momento em que apresentaram
os resultados do primeiro desafio colocado às noivas.
d) O rei fez um pedido aos três filhos.
e) O filho do meio encontrou uma noiva pálida, que era tecedeira.
f) O rei declarou, pela primeira vez, que o filho mais novo seria o herdeiro do trono.
g) O rei entregou a cada filho uma planta para ser fiada pelas respetivas noivas.

2. O conto desenvolve-se a partir de uma situação inicial. Identifica-a.

3. Refere duas peripécias importantes para o desenvolvimento da ação.

4. Identifica a personagem principal desta narrativa, justificando a tua opção.

5. Seleciona, para responderes a cada item, a alínea correta.
5.1. O rei apresentou um segundo desafio aos filhos visto
a) considerar todas as tarefas mal executadas.
b) desejar que fosse o filho mais velho a assumir o trono.
c) não aceitar o facto de ter sido a rã a vencer o desafio.
d) não querer ceder o trono a nenhum dos três filhos.
5.2. Na expressão «Quem sois?» (linha 64), a palavra «quem» refere-se
a) ao filho mais velho do rei.
b) ao filho mais novo.
c) à princesa vestida de verde-esmeralda.
d) à rã.

6. Após ouvirem ler este conto, dois alunos manifestaram opiniões diferentes acerca
do mesmo.

Aluno X
Acho que o provérbio que melhor se aplica a esta história é: «A beleza está nos olhos de quem a vê».

Aluno Y
Na minha opinião, o provérbio que traduz a lição deste conto é: «O mundo julga pelas aparências».

Diz com qual das opiniões concordas, justificando a tua opção.


II

1. Duas das quatro frases seguintes contêm um nome não contável.
Escreve as duas letras correspondentes às opções que escolheres.
a) «Ele tinha uma certa vergonha de se apresentar ao pai com uma noz enquanto os irmãos levavam o cânhamo fiado.»
b) «… a rã esperava-o numa carruagem feita de uma folha de figueira puxada por quatro caracóis.»
c) «…as noivas vieram todas carregadas de plumas e de joias.»
d) «E a rã saltou para fora da água em cima de uma folha.»

2. «Marcaram-se as bodas, os três irmãos no mesmo dia.»
Completa a frase seguinte com um quantificador numeral, de forma a provar que o
nome «bodas» é contável.
– Quando nasceram os netos, o rei passou a realizar, no mínimo, _______________ bodas
por ano.

3. Reescreve cada uma das frases, substituindo as expressões destacadas por um dos elementos apresentados.

consigo • convosco • lhes • vos

a) O filho mais novo trazia com ele a noz dada pela noiva.
b) Comprei este livro para ti e para a Maria.
c) Gostaria de recontar esta história aos meus amigos.
d) Posso ler o texto contigo e com o António.

4. Associa cada uma das ideias presentes na coluna B a cada uma das palavras destacadas na coluna A.
Escreve as letras e os números correspondentes.

A.
a) O filho mais novo atirou a pedra e esta caiu num fosso.
b) Ou aceitava a rã como noiva ou abdicava do trono.
c) A tecedeira fez um bom trabalho mas a rã superou o desafio.
d) O filho do rei aceitou casar-se com a rã, logo o encantamento quebrou-se.

B.
1) Ideia de contraste
2) Ideia de conclusão
3) Ideia de alternativa
4) Ideia de adição

5. Preenche os espaços em branco com uma das conjunções ou locuções conjuncionais apresentadas. Escreve a alínea e o elemento que lhe corresponde.

Não só […] como também • pois • mas

O Rei reconheceu _____________ a) _____________ o facto de a rã ter tecido a melhor tela
_____________ b) _____________ admitiu que esta merecia ser rainha _____________ c) _____________
vencera os dois desafios. Marcaram as bodas, _____________ d) _____________ não esperavam que a rã se transformasse numa princesa.


III

No final do conto de Italo Calvino, a rã afirma:
«– Eu era uma princesa transformada em rã, e só se um filho de um rei consentisse em casar comigo, sem saber se eu era bela, é que retomaria a forma humana.»

Imagina um diálogo entre a princesa e o filho mais novo do rei, em que esta relate os acontecimentos que deram origem ao encantamento.
No teu texto deves:
– respeitar as regras da construção do diálogo;
– incluir os sentimentos da princesa relativamente ao encantamento;
– incluir a opinião final do filho mais novo face ao relato.