22.5.11

Janelas abertas


Passo todos os dias por uma casa de muitas janelas viradas para a rua. Estão sempre abertas as janelas. De lá de dentro saem aromas de pétalas de flores, um cheiro assim que não sei descrever.
Olho para a janela e digo: vive ali alguém feliz. Porque há janelas que s merecem que, por trás delas, vivam pessoas felizes...
Porque há janelas com o rosto feliz de quem habita por trás delas...
E agora acabo de descobrir: vive lá, por detrás da tal janela de rosto de menina bem penteada e feliz, uma velhota que todos os dias abre a janela, rega vasos de flores maravilhosas, que sorri como se fosse sempre Verão, mesmo que o dia esteja forrado de cinza e chumbo e água desprendida dos olhos lacrimejantes do céu.
É uma velhota, convém notar, destacar, esclarecer - até porque dá outro sabor, misterioso mesmo a tudo isto - a quem chamam bruxa, maga, feiticeira, que sorte se fosse realmente assim, quantas vezes já sonhei ah, se eu tivesse poderes mágicos! Chamam-lhe assim, e por razões menores; dizem que as flores nas mãos dela renascem, que os pássaros vêm tocar-lhe de leve os cabelos e debicar as migalhas do pão que lhes estende, dizem até que tocou por dentro certas pessoas e as trouxe de volta para caminhos iluminados...
Ela própria, a velhota-risonha-bruxa, tem nome de flores, que eu fui perguntar, nome de flores num único cacho, num molho, num ramo...
É uma velhinha doce, cantinhos de olhos risonhos, mãozinhas de criar sonhos para oferecer aos outros... é uma velhota que... fica bem com uma música de guitarra. Com uma canção de pássaros, com uma habilidade qual¬quer e dizem-me que das suas mãos saíam as peças mais finas e mais raras, de uma entranhada alma que só existe em pessoas especiais, que fazem correr os poemas à tona da pele mas são, inteiros, um poema mergulhado dentro do peito, dentro do que sentem, dentro do que agem... ah, como sabe bem passar todos os dias por uma casa com muitas janelas floridas, todas abertas para a rua e a rua a entrar e a sair livremente por elas...

Alexandre Honrado, Sentados no Silêncio, ÂMBAR Ed.


Notas:
passo: forma verbal no presente do modo indicativo que é homófona de paço (palácio).
saem: de igual modo se escreve coem, subtraem, contraem.
convém: no pi. convêm; de igual modo as formas verbais: contém/contém; provém/provêm e retém/retém.
entranhada: dedicada (entranha tanto se pode referir ao interior do corpo como a sentimento profundo).
tona: camada fina.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. As janelas atraíam o narrador:

  1. pelo estilo arquitectónico
  2. por mostrarem vida
  3. pela cor

1.2. No último parágrafo os diminutivos da primeira linha transmitem:

  1. afectividade
  2. idade
  3. depreciação

2. Explica o sentido que atribuis à expressão do quarto parágrafo "janela de rosto de menino bem penteada e feliz". Da expressão utiliza apenas a palavra "janela".

3. Na primeira linha do quinto parágrafo, sucedem-se várias formas verbais sinóni­mas, como processo de intensificação de sentido.

3.1. Identifica-as.

3.2. Nesse mesmo parágrafo, selecciona um outro exemplo de repetição de sinó­nimos como processo de intensificação de sentido.

4. Que feitiços fazia a velhota?

5. Encontra uma explicação para o facto de o narrador ter utilizado hífenes na expressão "velhota-risonha-bruxa".

6. Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O narrador mostra-se muito observador.