23.5.11

Felizmente há Luar

Leia atentamente o seguinte texto.


MATILDE

(…) Juntos, meu amor, juntos por uns instantes, os últimos instantes em que estaremos juntos na Terra!
Olha, meu amor, vesti a saia verde que me compraste em Paris!
O António chora.

(Para o António.)

Não chore, António. Veja como ele ri!

(Faz o gesto de quem abotoa o casaco de Gomes Freire. Fala com ternura.)

Esqueces-te sempre deste botão.

(Aponta para a fogueira.)

Olha meu amor, a tua glória!
Vê-a bem, minha vida, porque, quando a fogueira se apagar, tens de te ir embora… Eu não vou contigo, mas verás que é por pouco tempo… Isso, pelo menos, me dará Deus…

(Ao longe o clarão da fogueira começa a apagar-se.)

Mais uns instantes, meu amor, e voltarás a ouvir os tambores!
Desta vez, porém, as fanfarras serão em tua honra… Estão todos à tua espera, meu homem.

(Pausa.)

Oiço-os, ao longe, falar de ti…

(Pausa.)

Olha: já estão formados!

(Pausa.)

Dá-me um beijo – o último na Terra – e vai! Saberei que lá chegaste quando ouvir os tambores!

(Estende o pescoço e levanta a cabeça para receber um beijo.)

Vai, amor da minha vida…

(Por um instante segue-o com os olhos. Depois com dignidade volta para o pé de Sousa Falcão.)

Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há de incendiar esta terra!

(O clarão da fogueira diminui visivelmente.)

Adeus, meu amor, adeus. Adeus! Adeus! Adeus!

(Para o povo.)

Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!
Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim…

(Pausa.)

Felizmente – felizmente há luar!

(Desaparece o clarão da fogueira. Ouve-se ao longe uma fanfarra que vai crescendo de intensidade até cair o pano.)


Luís de Sttau Monteiro, Felizmente Há Luar!


I

Apresente, de forma estruturada, as suas respostas ao questionário.
1. Explicite a importância simbólica da “saia verde” como mais um gesto distintivo e aparentemente oposto ao estado de espírito de Matilde.
2. Explique o sentido da frase “Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há de incendiar esta terra!”.
3. Refira as funções desempenhadas pelas didascálias neste excerto.
4. Mostre o valor das últimas palavras dirigidas por Matilde ao povo.


II

O sonho e a esperança num mundo melhor e mais justo estão patentes nas últimas palavras de Matilde.
Fernando Pessoa, na Mensagem, sonha também com uma nova era.

Fazendo apelo à sua experiência de leitura, exponha, num texto de sessenta a cento e vinte palavras, a sua opinião sobre o mito do Quinto Império e o “Desejado” ou “Encoberto”.