17.4.11

O Sapateiro Pobre

Lê atentamente o texto que se segue:


O Sapateiro Pobre


Havia um sapateiro, que trabalhava à porta de casa, e todo o santíssimo dia cantava; tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita pobreza, e à noite enquanto a mulher fazia a ceia, o homem puxava da viola e tocava os seus batuques muito contente.
Defronte dele morava um ricaço, que reparou naquele viver, e teve pelo sapateiro tal compaixão, que lhe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz.
O sapateiro lá ficou admirado; pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a mulher para o contarem. Naquela noite o sapateiro já não tocou viola; as crianças andavam a brincar pela casa e faziam barulho, fizeram-no errar a conta e ele teve de lhes bater, e ouviu-se uma choradeira, como nunca tinham feito quando tinham mais fome. Dizia a mulher:
– E agora, o que havemos nós de fazer a tanto dinheiro?
– Enterra-se.
– Perdemo-lhe o tino; é melhor metê-lo na arca.
– Mas podem roubá-lo, o melhor é pô-lo a render.
– Ora isso é ser onzeneiro.
– Então levantam-se as casas, e fazem-se de sobrado, e depois arranjo a oficina toda pintadinha.
– Isso não tem nada com a obra; o melhor era comprarmos uns campinhos; eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
– Nessa não caio eu.
– Pois o que me faz conta é ter terra; tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro de outra, naquela noite não pregaram olho. O vizinho ricaço reparava em tudo, e não sabia explicar aquela mudança. Por fim o sapateiro disse à mulher:
– Sabes que mais, o dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro.
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos e o sapateiro com vontade de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e trabalhar como o costume.


Contos Tradicionais Portugueses



I

1. Sublinha o sinónimo correspondente à palavra que se encontra em itálico. Só existe uma opção correcta, para cada frase.
a. … “isso é ser onzeneiro
a) comerciante
b) avarento
c) esperto
c) pobre

b. …”o homem zanga-se, atiça” …
a) prega (bater)
b) acende
c) sacode
d) esfrega

c. … “atiça duas solhas na mulher” …
a) peixes marinhos
b) gargalhadas
c) moedas
d) bofetadas

d. … “voltou para a sua tripeça”…
a) ofício de sapateiro
b) fazenda
c) festa
d) terra


2. Identifica as personagens deste texto.

3. Caracteriza-as.

4. Refere o que o vizinho decidiu fazer.

5. Explica o que aconteceu na casa do sapateiro depois de ter recebido a oferta.

6. Aponta a forma como o sapateiro e a mulher resolveram o conflito.

7. Salienta a moral, o ensinamento que este conto pretende transmitir.

8. Este texto é um conto popular. Situa a acção no tempo e no espaço, mencionando as características ou a estrutura deste tipo de textos.

9. Este conto contém várias expressões populares.

9.1. Explica o sentido das seguintes:
a) … ”Perdemo-lhe o tino”…
b) … “puxa-me o corpo para o campo” …
c) … “tudo o mais é vento” …
d) ”palavra puxa palavra” …


II

Lê, atentamente, o primeiro e o último parágrafo deste conto tradicional. A tua tarefa consiste em redigir a parte do conto em falta.

HISTÓRIA DO COMPADRE RICO E DO COMPADRE POBRE

Moravam numa aldeia dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito miserável. Naquela terra era uso todos quantos matavam porco dar um lombo ao abade. O compadre rico, que queria matar porco sem ter de dar o lombo, lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso.
Este deu-lhe de conselho...

(...)

Desta maneira o compadre pobre teve porco e vinho sem lhe custar nada.