7.4.11

«O Principezinho» de Antoine de Saint-Éxupery

E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu com delicadeza* o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"*?
- Tu não és daqui - disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens - disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm espingardas e caçam. É bem incómodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não - disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. Significa "criar laços...".
- Criar laços?
- Exactamente - disse a raposa. Tu não és para mim senão um rapaz inteiramente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível - disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! Não foi na Terra - disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito - suspirou a raposa. A perfeição não existe.
Mas a raposa voltou à sua ideia.
- A minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens caçam-me a mim. Todas as galinhas são iguais e todos os homens se parecem também. É por isso que eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativares, será como se o Sol iluminasse a minha vida. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos fazem-me esconder debaixo da terra.
Os teus hão-de atrair-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. Como o trigo é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu hei-de amar o barulho do vento atrás do trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! - disse ela.
- Tenho muito gosto - respondeu o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. Os homens já não têm tempo de tomar conhecimento de nada. Compram tudo pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente - respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia que passe, te sentarás mais perto...


O Principezinho, Antoine Saint Exupéry
(Adaptado)



I


1. Onde se passa esta história?

2. Identifica as personagens do excerto.

3. Caracteriza-as física e psicologicamente.

4. O que há em comum entre estas personagens?

5. Qual é a palavra que serve de base ao diálogo entre a raposa e o principezinho?

6. De acordo com a raposa, o que é preciso para fazer um amigo?

7. Que crítica faz a raposa à nossa sociedade, no que diz respeito ao acto de fazer amigos?

8. Atribui um título ao excerto, justificando a tua escolha.

9. “A linguagem é fonte de mal-entendidos”.
a) Explica o sentido desta afirmação.
b) Estás de acordo com esta afirmação? Justifica a resposta.


II


1. Encontra sinónimos para as seguintes palavras: delicadeza, cativar e intrigada.

2. “- Bom dia – disse a raposa.
- Bom dia – respondeu com delicadeza* o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.”
2.1. Identifica o emissor, o receptor, o canal, o código e a mensagem da frase.


III


“Amigo” é um sorriso
de boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
“Amigo” é a solidão derrotada!

Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca


Com base neste excerto do poema “Amigo”, compõe um texto curto, mas bem estruturado, salientando a importância da verdadeira amizade.