26.4.11

A estrela


Esta é a história autêntica de uma rapariga alentejana que tem uma estrela na palma da mão. Chama-se Rita. Ia nos doze anos quando houve enfim abastecimento de água na aldeia onde ela vivia, que era tão-só um amontoado alvacento de casas de adobe nascidas à mão do arquitecto acaso. Numa dessas casas, muito caiadas, morava uma família de seareiros, que tinha um menino doente. Rita era uma das vizinhas pobres que brincavam com esse menino. Mas havia bem três meses que ele não se erguia da cama. Tinham os trigos enrijado, fizera-se a matança do porco e o menino definhava. Haviam-no levado ao médico; e o médico tirara-lhe a febre, apalpara-o todo, auscultara-o, torcera o nariz, e mandara fazer umas análises. Mas onde? Bem, então receitara. E o menino, pelo visto, em vez de sarar piorava de dia para dia. Os pais já não sabiam o que inventar para conseguir que ele comesse. Rita tentava tudo para que lhe desse, ao menos, um risinho. Eram da mesma criação. Tinham andado juntos no posto de ensino até à terceira classe. E era dos dois o que mandava. Agora não lhe arrancava um botão do bibe, não lhe arrepelava os cabelos, nem sequer lhe pedia um berlinde. Nada. Estava para ali muito quieto, na sua cama pintada de flores. Durante horas, Rita, sempre calada, para os pais dele não a porem na rua, espiava-lhe o sinal de menor desejo: um golo de água, uma toalha para limpar o suor que lhe orvalhava as fontes. Mas ele quase não se mexia, parecia não dar fé das pessoas nem das coisas. Por isso Rita ficou num grande alvoroço quando ele inesperadamente disse (caía a noite sobre o povo muito branco):
– O que eu queria era uma estrela como aquela, tão pequenina e tão brilhante.
– Uma estrela? – disse a Rita, ao mesmo tempo maravilhada e aflita, porque uma estrela não se deixa colher do céu como as nêsperas da nespereira.
– Sim: aquela estrelinha.
– E curavas-te, se eu ta trouxesse?
– Estou cá em mim que me punha bom.
– Pois eu vou ver, amiguinho…
– Vais buscá-la?
– Vou mesmo, que é que tu cuidas?
E saiu, sem a menor noção do que fazer para cumprir tal promessa, mas disposta a revolver céu e terra, no seu mundo de cinco metros, para lhe dar aquele gosto. Mas as estrelas ficam tão altas!…
Horas depois, às furtadelas, iludindo a atenção dos pais dele, entrou (muito trémula e envergonhada da mentira piedosa) pelo quarto dele, já escurecido, com um tição ardente nas presas de uma tenaz.
– Que é isso, Rita?
Ele conhecia-a pelos seus passos, pelo cheiro, pelo sopro.
– Então não vês?, é a estrela – disse ela sem pinga de sangue.
– Mostra cá! Mais perto. Aqui ao pé de mim. Quero vê-la na palma da tua mão.
O menino não deixou de morrer por causa dessa alegria, mas Rita ficou com uma estrela vermelha a aquecer-lhe para sempre a mão.

Urbano Tavares Rodrigues, Estórias Alentejanas,
Ed. Caminho (texto adaptado)



Indica se as seguintes afirmações são verdadeiras (V), falsas (F) ou parcialmente falsas (PF). Nestas últimas, sublinha a parte que é falsa.

a. O narrador anuncia que vai contar uma história verdadeira de uma rapariga.
b. Rita vivia numa aldeia de casas pobres, mas bem arquitectadas.
c. Ela costumava visitar um amigo que morava longe e estava doente.
d. Quando a doença lho permitia, o rapazinho jogava ao botão ou ao berlinde com a sua amiga Rita.
e. Ela gostava de brincar com ele e reconhecia-lhe qualidades de líder.
f. Durante o tempo em que ele estava de cama, ela ficava ao seu lado durante horas.
g. Rita estava calada, para os pais do menino não se aborrecerem.
h. Certo dia, de manhã, ele formulou um pedido.
i. Manifestou o desejo de possuir uma estrelinha que avistava da sua cama.
j. Quando o ouviu, Rita ficou simultaneamente aliviada e pensativa.
l. Rita não fazia ideia de como concretizar o desejo do amigo, mas prometeu trazer-lhe a estrela.
m. Ela foi de imediato pedir ajuda a outros colegas de escola.
n. Horas depois, bateu à porta de casa do amigo e entrou no seu quarto com uma brasa acesa presa numa tenaz a fingir de estrela.
o. O menino desconfiou e quis que a amiga lha mostrasse na palma da mão.
p. O menino acabou por morrer e Rita ficou, para sempre, com a marca de uma queimadura na mão.