21.4.11

Ele há profissões


Entrei no táxi ainda estremunhada, sem saber se havia de dizer bom dia ou boa noite, lá fora a escuridão da madrugada sobre a rua deserta. Mal arrancamos e já o taxista começa a filosofar sobre as agruras da vida de quem tem de se levantar tão cedo, que para ele isso nem é custoso, está habituado, sempre preferiu guiar de noite e, de resto, está mesmo a largar o serviço. "É só deixá-la no aeroporto e ala para casa", diz, os dedos no volante ao ritmo da música que, em surdina, sai da telefonia. Não me deu tempo a dizer fosse o que fosse e logo adiantou que a ele, só visto!, era cada maduro que lhe entrava no carro! "Imagine que antes de a apanhar a si apanhei dois homens que iam caçar, sabe para onde? Ora veja lá se adivinha, não adivinha, está claro!, quem é que era capaz de adivinhar uma coisa daquelas? Iam caçar para o Cazaquistão! Imagine! Para o Cazaquistão! Eu cá ainda lhes disse, vocês estão é a gozar com a minha cara, mas eles que não, que era mesmo verdade, que iam para o Cazaquistão, e era verdade mesmo, porque quando os larguei no aeroporto já lá estavam mais dois, com as armas e tudo ao lado, quer dizer, eu não vi as armas, mas eram assim uns estojos com feitio de espingardas, que até me deu cá um arrepio!"
As ruas praticamente vazias e a excitação do Cazaquistão fazem aumentar a velocidade do táxi na razão directa do sorriso na boca do taxista, "que eu, para dizer a verdade, nem sei muito bem onde é que fica o Cazaquistão, a senhora compreende, ando aqui a dar o litro e não tenho tempo para ler jornais ou ver televisão, mas sei que é um desses países que se inventaram agora, para lá do sol-posto". Dobramos a rotunda quando ele pergunta, um sorriso cada vez maior, se não é indiscrição, para onde é que eu vou e o que faço na vida. Desfaço-lhe as possíveis ilusões quando lhe atiro com o banalíssimo destino de Paris, meu Deus, e que é isso comparado com o Cazaquistão, mas abre a boca de espanto e fica a olhar-me pelo espelho retrovisor quando lhe digo que sou escritora. "Escritora?!", e volta a olhar pelo retrovisor, "sabe que eu nunca vi assim um escritor de perto? Isto é que tem sido uma noite em cheio, caramba!, a minha mulher nem vai acreditar quando eu lhe contar!" Abana muitas vezes a cabeça, volta a olhar pelo retrovisor, pergunta-me o nome e lá vai dizendo que sim senhora, já o ouviu em qualquer sítio, que ele - desculpasse - não tinha tempo para leituras, mas até gostava, e obrigava sempre os filhos a ler muito, "a gente sermos ignorantes é uma coisa muito triste, muito triste mesmo, passa¬mos cada vergonha, olhe há bocado, eles a dizerem-me vamos caçar para o Cazaquistão, e eu sem saber onde é que isso ficava! A senhora é que deve saber, é bom saber essas coisas".

Alice Vieira, "Ele há profissões", in Bica Escaldada, Ed. Notícias


Notas:
estremunhada: meio entontecida com o sono.
agruras: contrariedades, tristezas, aflições.
Cazaquistão: país situado na Ásia central, independente desde 1991, resultado da desintegração da União Soviética.




1. Assinala a opção que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. A narradora não sabia se havia de dizer "bom dia" ou "boa noite" porque:

  1. vinha do estrangeiro
  2. ainda não se deitara
  3. o sol não nascera

1.2. O taxista era:

  1. importuno
  2. comunicativo
  3. madrugador

2. Explica o sentido das expressões, características de uma linguagem informal:

2.1. "... era cada maduro que lhe entrava no carro!"

2.2. "... ando aqui a dar o litro..."

3. Presta atenção à presença das aspas ao longo do texto. Esclarece a sua função.

4. Relê o segundo parágrafo.

4.1. Explica, por palavras tuas, as razões que levaram o taxista a acelerar

4.2. Reescreve a frase: "Dobramos a rotunda quando ele pergunta, um sorriso cada vez maior, se não é indiscrição, para onde é que eu vou e o que faço na vida." , passando para discurso direto a fala do taxista.

5. Interpreta, à luz do texto, a seguinte frase: "Desfaço-lhe as possíveis ilusões quando lhe atiro com o banalíssimo destino de Paris..."

6. Com base no texto e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentá­rio com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

Para o taxista foi uma noite em cheio!