12.3.11

De tarde, Em Petiz



De tarde

Mais morta do que viva, a minha companheira
Nem força teve em si para soltar um grito;
E eu, nesse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homenzarrão servi-lhe de barreira!

Em meio de arvoredo, azenhas e ruínas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E, tetas a abanar, as mães, de largas ancas,
Desciam mais atrás, malhadas e turinas.

Do seio do lugar - casitas com postigos -
Vem-nos o leite. Mas batizam-no primeiro.
Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo pregão vos tira ao vosso sono, amigos!

Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:
Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!
E os fartos animais, ao recolher dos pastos,
Roçavam pelo teu "costume de percale".

Já não receias tu essa vaquita preta,
Que eu seguirei, prendi por um chavelho? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Ombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

Cesário Verde, Obra Completa,
edição de Joel Serrão, Lisboa, Livros Horizonte, 1988


Notas:
1 destro: ágil, hábil
2 turinas: raça de gado bovino.
3 batizam-no: adicionam-lhe água.
4 pregão: anúncio público feito em voz alta.
5 pegos: os sítios mais fundos dos rios.
6 costume de percale: (expressão francesa) fato de percal (tecido de algodão fino e liso).
7 chavelho: chifre.



I

1. Resume o pequeno episódio evocado no poema.
2. Indica os traços que caracterizam o espaço representado.
3. Compara os retratos das figuras que protagonizam o referido episódio.
4. Interpreta, no contexto do poema, a invocação aos «amigos» (v. 12).
5. Analisa a relação que se estabelece no texto entre o passado e o presente.


II

Elabora um texto bem estruturado, de cento e cinquenta a duzentas palavras, em que comentes e desenvolvas o sentido dos seguintes versos de Álvaro de Campos sobre Cesário Verde:
Cesário que conseguiu
Ver claro, ver simples, ver puro, ;
Ver o mundo nas suas cousas.

Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2002