2.3.11

Contrariedades


Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde


PARTE I

Responde ao questionário de modo estruturado e conciso.
1. Refere os sentimentos que dominam o sujeito poético, atentando na primeira estrofe.
2. O eu poético observa «Ali defronte» (v. 5) uma mulher. Caracteriza-a.
3. Identifica o motivo que justifica a perversão e as «raivas frias» (v. 14) do eu poético.
4. Indica a razão pela qual, segundo o sujeito poético, os jornalistas lhe «negam as colunas» (v. 24).
5. Pela técnica da recorrência da construção do texto, o eu poético centra de novo a atenção na «tísica» (v. 25).
5.1 Interpreta o significado da expressão «fina-se ao desprezo» (v. 28), identificando a figura de estilo.
5.2 Estabelece a relação entre a condição social da mulher e o agravamento do seu estado de saúde.
6. Justifica o título do poema, considerando a análise que o eu faz de si próprio e da vida da «pobre engomadeira».


II

O caráter subliminar da mensagem publicitária

Os anúncios publicitários visam influenciar, persuadir e convencer o consumidor, tendo como objetivo fundamental a aquisição dos produtos que difundem.
O processo de encantamento, de sedução da mensagem publicitária é cada vez mais sofisticado e tem na sua essência um conjunto de ideologias e valores que atuam perigosamente sobre o inconsciente do cidadão que consome.
Logo, impõe-se a seguinte questão: porque é que a mensagem subliminar dos anúncios publicitários prejudica o consumidor?
Entende-se por mensagem subliminar a informação veiculada por estímulos que não são percecionados pelo consciente do indivíduo, mas captados e incorporados pelo inconsciente.
Deste modo, é óbvio que este tipo de publicidade esconde intencionalmente a mensagem, manipulando o consumidor. Tomemos como exemplo os anúncios apresentados nos intervalos de algumas sessões de cinema. Terminada a primeira parte do filme, aparece, subitamente, no ecrã, uma imagem de um McBurguer e de uma garrafa de Coca-Cola; esta mensagem subliminar atua sobre o inconsciente dos espetadores que se levantam e, de imediato, procuram adquirir os produtos que apenas, por breves segundos, visualizaram no ecrã.
A mensagem subliminar é, pois, perigosa e, por vezes, cruel, porquanto, ora aproveita a fragilidade emocional daquele que a receciona, ora beneficia da hiperinformação a que os indivíduos estão sujeitos na era da globalização, no séc. XXI.
Pelos argumentos expostos, pode concluir-se que a mensagem subliminar deverá ser gradualmente eliminada até à sua total extinção, de modo a que o consumidor possa adquirir consciente e livremente os produtos que desejar.


Seleciona a alternativa que permite obter uma afirmação adequada ao sentido do texto.
1. Os verbos «influenciar, persuadir e convencer» são:
a) as ações desenvolvidas pelo público consumidor.
b) três objetivos dos anúncios publicitários.
c) os objetivos principais da mensagem publicitária.
d) reações do consumidor para adquirir produtos.

2. A publicidade subliminar é um processo que:
a) atua diretamente no consciente do consumidor.
b) resulta de um esclarecimento cabal do cidadão.
c) atua, envolvendo o subconsciente do consumidor.
d) revela claramente as suas ideologias e valores.

3. O autor considera que a publicidade subliminar é:
a) verdadeira e esclarecedora para com o cidadão.
b) enganadora e controladora da vontade do consumidor.
c) aceitável e interessante na sociedade atual.
d) específica e limitada aos espaços de entretenimento. .

4. Em «que a receciona» (l. 17) o referente de «a» é:
a) «a fragilidade emocional» (Is. 16 e 17)
b) «a mensagem subliminar» (l. 16)
c) «hiperinformação» (l. 17)...
d) «daquele» (1.17)

5. Em «A mensagem subliminar é, pois, perigosa.» (l. 16), o constituinte «perigosa» desempenha a função de:
a) sujeito..
b) complemento direto.
c) predicativo do sujeito
d) complemento indireto .

6. Na frase «que desejar», o antecedente do constituinte «que» é:
a) «a mensagem subliminar» (l. 6).
b) «total extinção» (l. 20)..
c) «o consumidor» (l. 20)..
d) «os produtos» (l. 21)

7. Faz corresponder a cada segmento textual da coluna A um único segmento textual da coluna B, de modo a obter uma afirmação adequada ao sentido do texto.

A
1. Com o vocábulo «Logo» (l. 6)
2. Com a expressão «Tomemos como exem¬plo» (l. 11)
3. Com a locução conjuncional «ora...ora» (Is. 16 e 17)
4. Com a frase «deverá ser gradualmente eliminada» (Is. 19 e 20)
5. Com a expressão «consciente e livremente» (Is. 20 e 21)

B
a) o enunciador reforça a sua tese, concretizando-a.
b) o enunciador expressa duas alternativas negativas da publicidade subliminar.
c) o enunciador ordena a informação.
d) o enunciador exprime uma finalidade.
e) o enunciador indica o modo como o consumidor agirá no futuro.
f) o enunciador apresenta o conteúdo da frase como uma possibilidade.
g) o enunciador remete para uma probabilidade futura.
h) o enunciador estabelece uma conexão conclusiva.


III

Elabora um texto publicitário (constituído pelos seguintes elementos: título, corpo do texto - três argumentos - e slogan) para um dos produtos sugeridos:
* uma máquina fotográfica;
* uma viagem ao Tibete;
* uma casa inteligente.