28.3.11

Adorava voar


Era de manhã e o novo sol cintilava nas rugas de um mar calmo.
A dois quilómetros da costa, um barco de pesca acariciava a água. As palavras Pequeno-Almoço relampejaram no ar e despertaram um bando de mil gaivotas que se lançou precipitadamente na luta pelos pedacinhos de comida. Amanhecia um novo dia de trabalho.
Mas lá ao fundo, sozinho, longe do barco e da costa, Fernão Capelo Gaivota treinava. A trinta metros da superfície azul brilhante, baixou os seus pés com membranas, levantou o bico e tentou a todo o custo manter uma dolorosa curva apertada, à força de asas. A curva exigia que voasse devagar e então abrandou até sentir o vento como um ligeiro sopro e ver o oceano como um tapete macio. Cerrou os olhos para se concentrar melhor, susteve a respiração e forçou... só... mais... um... centímetro... de... curva... Mas as penas levantaram-se em turbilhão, atrapalhou-se e caiu.
Como sabem, as gaivotas nunca se atrapalham, nunca caem. Atrapalhar-se no ar é para elas desgraça e desonra.
Mas Fernão Capelo Gaivota não era um pássaro vulgar. Sem vergonha, abriu outra vez as asas naquela trémula curva apertada, abrandou, abrandou, e atrapalhou-se outra vez...
A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples factos do voo - como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar. Antes de tudo o mais, Fernão Capelo Gaivota adorava voar.
Esta maneira de pensar não o popularizava entre os outros pássaros, como veio a descobrir. Até os próprios pais se sentiam desanimados ao vê-lo passar dias inteiros fazendo centenas de voos rasantes, sozinho, a experimentar. (...)
Quando começou a treinar as aterragens deslizantes na praia, e a contar em passos o comprimento do rasto na areia, os pais começaram a ficar deveras desanimados.
- Porquê, Fernão, porquê? - perguntava-lhe a mãe - Porque é que te custa tanto ser como o resto do bando? Porque não deixas os voos baixos para os pelicanos, para o albatroz? Porque não comes? Filho, tu estás penas e osso!
- Não me importo de estar penas e osso, mãe. Eu só quero saber o que posso fazer no ar e o que não posso, é tudo. Só quero saber isso.

Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota,
trad. de António Ramos Rosa e Madalena Rosález, Moraes Ed.


Notas:
cintilava: trémula:
faiscava; resplandecia. hesitante; vacilant
e.


1. Aquela era uma manhã de mar calmo.

1.1. Comprova a afirmação anterior com transcrições do texto.

2. Presta atenção ao segundo parágrafo.

2.1. Justifica o emprego da forma verbal "relampejaram".

3. No sexto parágrafo o narrador apresenta-nos realidades distintas.

3.1. Expressa e justifica a tua opinião sobre essas realidades.

3.2. Como se teria de comportar um jovem para podermos dizer que era pareci­do com Fernão Capelo Gaivota?

3.3. Que consequências sofreu Fernão Capelo Gaivota por gostar tanto de voar?

4. Faz a caracterização psicológica da personagem principal, preenchendo o quadro:

Características - transcrições justificativas

4.1. Agora articula as informações registadas num texto.