17.2.11

A Senhora do Retrato


Os retratos a óleo fascinam-me. E ao mesmo tempo assustam-me. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. Para falar verdade, estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Em certas noites, quando eu era pequeno, ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer.
Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Ficava ao cimo das escadas, à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Mesmo assim, rodeado de sombras, irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato.
Não sei se da blusa muito branca, se dos olhos, às vezes verdes, às vezes cinzentos. Não sei se do sorriso, às vezes alegre, às vezes triste. Eu parava muitas vezes em frente do retrato. Era talvez o único que não me assustava. Creio até que dele se desprendia uma luz benfazeja, que de certo modo me protegia.
Mas havia um mistério. Ninguém me dizia quem era a senhora do retrato. Arminda, a criada velha, benzia-se quando passava diante do quadro. Às vezes fazia figas e estranhos sinais de esconjuração. A prima Luísa passava sem olhar.
- Essa pergunta não se faz - disse-me um dia em que lhe perguntei quem era aquela senhora.
Percebi que não gostava dela e que era um assunto proibido. Até a minha mãe me ralhou e me pediu para nunca mais fazer tal pergunta. Mas eu não resistia. Por vezes descaía-me e dava comigo a perguntar quem era a senhora dos olhos verdes, quase cinzentos, que me sorria de dentro do retrato.
Com a minha tia-avó, eu tinha uma relação especial. Ela lia-me histórias e poemas inquietantes. Creio que troçava das convenções, talvez das próprias pessoas. Por vezes era difícil saber quando estava a sério ou a brincar. Apesar de já ser muito velha, tinha um sentido agudo do ridículo. Foi a primeira pessoa verdadeiramente subversiva que conheci. Era óbvio que tinha um fraco por mim. Pelo menos era o único membro da família a quem ela tratava como um igual. Dormia no andar de baixo e nunca subia as escadas. Talvez por isso eu nunca lhe tinha perguntado quem era a senhora do retrato.
Um dia, farto já de tanto mistério e ralhete e, sobretudo, das gaifonas da Arminda e do ar empertigado da prima Luísa, não me contive e perguntei-lhe. A minha tia sorriu. Depois levantou-se, pegou no molho de chaves que trazia preso à cintura, abriu uma gaveta da escrevaninha e tirou um álbum muito antigo. Voltou a sentar-se e lentamente começou a mostrar-me as fotografias. Eram quase todas da senhora do retrato e do meu primo Bernardo, que há muito tinha partido para a África do Sul.
Apareciam juntos a cavalo e de bicicleta. E também de fato de banho, na praia da Costa Nova. Havia alguns em que o meu primo estava de smoking e ela de vestido de noite. Via-se também a tia Hermengarda, mais nova, por vezes os meus pais, gente que eu não conhecia. Até que chegámos à senhora do retrato já de branco vestida.
- Natacha - murmurou a minha tia, com uma névoa nos olhos.
E depois de um silêncio:
- Ela chama-se Natália, mas eu gosto mais de Natacha, sempre a tratei assim. É preciso dizer que a tia Hermengarda tinha vivido em Moscovo no início da carreira diplomática do marido e era uma apaixonada dos autores russos, Pushkine, Dostoievski, principalmente Tolstoi, que visitou algumas vezes em Isnaia Poliana. Identificava-se com as personagens de Guerra e Paz. Creio que amava secretamente o príncipe André e gostava de ter sido Natacha. Falava muito da alma russa. Era uma propensão do seu espírito.
- Tu também tens alma russa - dizia-me. E era como se me tivesse armado cavaleiro.


Manuel Alegre, O Homem do País Azul, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989.



Seleccione a opção que lhe parece correcta para completar a frase.

1. O narrador sempre receou os retratos a óleo porque tinha medo que:
a) caíssem da moldura e nunca mais conseguisse consertá-los.
b) as pessoas retratadas partissem o vidro para poder fugir.
c) caíssem em cima dele e o matassem.
d) as pessoas saíssem da moldura e passeassem pela casa.

2. Em casa da tia Hermengarda havia um quadro que constituía um mistério porque:
a) ficava no cimo do corredor e ele não conseguia vê-lo bem.
b) ninguém sabia quem era a pessoa retratada.
c) a senhora do retrato tinha um aspecto que metia medo.
d) ninguém da família respondia às perguntas sobre a senhora retratada.

3. A tia-avó do narrador nunca passava em frente daquele retrato porque:
a) tinha medo que lhe trouxesse azar.
b) dormia no andar de baixo e não subia as escadas.
c) não dava importância ao assunto.
d) nunca descia as escadas e dormia no andar de cima.

4. O narrador teve informações sobre o retrato quando a tia Hermengarda lhe:
a) apresentou algumas roupas da senhora.
b) mostrou fotografias e contou a história da senhora.
c) disse que a senhora tinha sido casada com Pushkine.
d) explicou que a senhora era Natalina e lhe chamavam Natacha.

5. Hermengarda falava muito da alma russa:
a) porque tinha vivido em Moscovo durante a sua carreira diplomática.
b) porque tinha vivido em Minsk no início da carreira diplomática do marido.
c) e dos autores russos, principalmente Tolstoi.
d) e de Tolstoi que gostava de ter conhecido.