4.2.11

Que susto!

Que susto!


Apearam-se1 hoje no Terreiro do Paço e sobem a Rua do Ouro. Como sempre, ele vai distraído a olhar tudo, o mundo que o seduz, agitado e rumoroso. A uma esquina, um bloco de homens barra-lhe o caminho: é a zona dos cambistas2 e corretores3, e o negócio ferve a esta hora! Tímido e trôpego, não ousa romper por entre a muralha de pernas. Mas é muito simples - desce do passeio e dá a volta ao magote4, pelo meio da rua.
A mãe e a Águeda (irmã dele) já vão adiante, está sozinho no tumulto. Corre e trotina em passos miúdos no basalto irregular, escorregadio, para alcançá-las.
Nisto, atrás e por cima da cabeça, ouve estoirar um clamor de gritos, um clangor5 arrepiante de ferragens, de alguma coisa que rasteja e tilinta no empedrado, e ergue uma nuvem de areia pulverizada a cheirar a queimado... Colhido de surpresa, volta-se e dá um pulo...
O elétrico estacou com grande estardalhaço, e ele está de pé, sem saber como, na rede salva-vidas! Corre gente, há mais gritos, olhos arregal¬dos, mãos estendidas, e em cima o guarda-freio6, rubro, parece amaldiçoá-lo com o punho estendido.
Mas que foi? Que foi? Ele não caiu nem se magoou! Envergonhado e sem compreender, pula da rede7 abaixo e corre, perseguido pelos berros, arremetendo de cabeça baixa contra a barreira dos corpos indiferentes, à procura da mãe que vai já longe e deve estar inquieta...
– Onde te meteste tu? – indaga ela, à esquina seguinte. Ouviu aquele clamor, parou a olhar, mas nem pela cabeça lhe passou que fosse por causa do filho.
– Fizeste alguma?
Ele não responde. Continua a andar, de cabeça baixa, vermelho, no meio do tumulto. O elétrico pôs-se de novo em marcha, os passageiros voltam-se a olhá-lo das janelas, entre comentários, e o condutor atira-lhe do estribo palavras irritadas, de que ele só entende que “ia fazendo a desgraça dum homem!” (No risco dele não falam.)
Só agora a mãe percebe, e para, lívida de susto:
– Ias sendo atropelado?
Mas ele teima em não falar e agarra-lhe a mão. A vergonha acabrunha-o, e o coração desata-lhe por fim a bater desordenadamente, de susto adiado.

José Rodrigues Miguéis, A Escola do Paraíso.



Vocabulário
1 Apear-se: sair do elétrico.
2 Cambistas: negociantes de moeda estrangeira.
3 Corretores: técnicos de negócios na bolsa de valores.
4 Magote: multidão.
5 Clangor: barulho muito forte.
6 Guarda-freio: condutor do elétrico.
7 Rede: espécie de rede colocada à frente dos elétricos para proteger quem fosse apanhado por eles.




1. Escolhe a opção correta. O espaço onde decorre a ação é:
1.1 uma rua de uma cidade.
1.2 uma escola.
1.3 o interior de um elétrico.
1.4 o Terreiro do Paço.

2. O narrador correu determinado perigo.
2.1 Explicita-o.
2.2 Explica como ele escapou a esse perigo.

3. Relê o primeiro parágrafo. Escolhe a opção correta. O narrador saiu do passeio e foi para a rua, para a linha do elétrico porque:
3.1 assustou-se com o conjunto de negociantes que estava numa esquina.
3.2 tinha-se perdido da mãe e da irmã.
3.3 queria observar bem o elétrico.
3.4 não sabia que o elétrico passava naquela rua.

4. Copia a frase do primeiro parágrafo que comprova que o narrador era uma criança pequena.

5. Na frase «(…) o negócio ferve a esta hora!» (linha 4), a palavra destacada está empregue no sentido denotativo ou conotativo? Justifica.

6. Esta palavra é, por isso, um recurso de estilo designado por:
6.1 comparação.
6.2 metáfora.
6.3 personificação.
6.4 antítese.

7. Encontra, no mesmo parágrafo, um recurso de estilo idêntico.