16.2.11

O Outro



Saí de cena. E como a peça era tão moderna que ninguém a entendia, não houve protestos pela minha ausência. O Gravador tinha um ar preocupado.
- Desculpa interromper-te num momento destes.
- Não tem importância... Aconteceu alguma coisa?
- O bebé, o teu irmãozinho, foi de urgência para o hospital. Não sabem se escapa...
Agarrei no Gravador e, mesmo vestido de marinheiro da Nau Catrineta, corri para o hospital. Estranhamente, senti uma bola na garganta, a sufocar-me...
Foram horas inesquecíveis. Caiu a noite, a madrugada arrastou-se e eu ali, com a Rezinga e o Homem Grande à espera, à espera...
Serviu-me de muito esperar. Serviu-me para alinhar na cabeça os últimos dias, os últimos acontecimentos, as últimas sensações e emoções que eu tive­ra. O ódio que eu tive do Outro. Tudo...
Aquela era uma grande oportunidade - pensei... Se o Outro morresse eu ficava livre dele para sempre. Aliás, com tanta fome, tanta guerra e desgraça no Mundo, o Outro nem ia sentir-se bem...
Com o avançar das horas cheguei a outras conclusões... A vida está cheia de coisas boas, de divertimentos, de solidariedade - mesmo no sítio onde a Branca de Neve vive eu vi pessoas com esperança, com força de vontade, com garra para continuar. A vida está cheia de Sol, tem aquele interesse único que eu costumo ouvir nas histórias do Gravador... A Vida...
A vida é coisa que se conquista. E que se faz. A vida é uma coisa que ri. Sim, a Vida é para rir. E fazer melhor. Sempre melhor.
De repente, veio-me à memória o corpinho mole e quentinho do Outro.
Não morras. Por favor, não morras. Aguenta-te lá, ó bola com pernas, que nem chegámos a conversar um bocadinho que fosse.
O tempo ia passando e nós sofríamos. E o Outro? Não sofras, não morras, quem me dera trocar de lugar contigo...
Era já de manhã. Um médico de ar sério dirigiu-se-nos:
- São os familiares do Miguel? Que sim? E...
- Está livre de perigo.
Agarrámo-nos os três - eu nunca tinha abraçado a Rezinga, foi a primeira vez...
O Outro vale a pena, o Outro safou-se, viva o Outro! Nesse dia eu tinha revelado o maior dos mistérios.
Saberão vocês que me lêem revelar os vossos?

Alexandre Honrado, O Maior dos Mistérios, Ed. Edinter



Notas:

protestos: reclamações.

ausência: falta de comparência.

sensações: impressões causadas por acontecimentos.

emoções: comoções, alvoroços.

garra: capacidade; talento; genica.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. No início da acção o narrador estava:

  1. num palco
  2. a viver um acontecimento
  3. a dirigir uma peça

1.2. O narrador sofreu porque:

  1. saiu de cena
  2. o Outro estava em perigo
  3. "o Outro safou-se"

2. Indica a função que o narrador exercia na peça e o nome da mesma.

3. Faz o levantamento de todas as personagens referenciadas no texto.

4. Procura identificar as relações entre estas personagens. Ao mesmo tempo, encon­tra uma explicação para os seus estranhos nomes.

5. Qual é a ação fundamental do texto?

6. Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

O amor venceu o "ódio".