28.2.11

O espelho


Eu gostava tanto da Susana que as minhas pernas tremiam e as minhas faces coravam só de ouvir pronunciar o nome dela. Mas não era capaz de lho dizer. Às vezes ia preparado para o fazer, mas quando chegava muito perto sentia-me desfalecer e em vez de dizer "gosto de ti" dizia outra coisa qualquer, como, por exemplo, "está um lindo dia" ou "emprestas-me os teus lápis de cor?". E como eu nunca lho dizia, também não me dizia ela que gostava de mim, embora isso estivesse escrito nos seus olhos quando falava comigo.
Estávamos nisto quando, certa noite, o meu pai veio colocar um espelho enorme numa das paredes do meu quarto. Enquanto o punha, ia dizendo qualquer coisa que - sinceramente - não entendi. Estava muito ocupado a pensar na Susana e, afinal, já tinha visto antes muitos espelhos como aquele.
No dia seguinte, porém, acordei muito bem-disposto. Lavei-me, penteei-me, vesti uma roupa nova e calcei uns sapatos bem engraxados. Depois olhei para o espelho e vi, mesmo à minha frente, um rapaz muito jeitoso.
- Estás muito bem arranjado - disse-lhe eu. - Onde vais? Posso ir contigo?
Mas ele não me respondeu. Pôs só um dedo sobre os lábios, como quem diz:"- Schtt... Vê lá se te calas!" E eu calei-me.
Pouco depois, porém, abriu-se a porta que havia naquele outro quarto que estava para lá do espelho e eu vi, com grande espanto, entrar ali a Susana.
- Gosto muito de ti - disse-lhe o tal rapaz.
- Eu também gosto de ti - respondeu a Susana.
Depois enlaçaram as mãos, abriram a porta daquele quarto e foram embora.
Ainda me apeteceu gritar para a Susana: "Então gostas dele ou de mim?" Mas não fui capaz de dizer nada. Olhei por mim abaixo e reparei que estava igualzinho ao rapaz do espelho. Compreendi então que ele era eu (ou eu era ele, tanto faz).
Nesse instante abriu-se a porta do meu quarto. Era a Susana e vinha a sorrir, como se já soubesse o que iria acontecer. Eu não pensei duas vezes, disse-lhe logo:
- Gosto muito de ti!
E ela, sorrindo cada vez mais:
- Também gosto muito de ti.
Demos as mãos e saímos. Lá fora estava um mundo que desejávamos descobrir juntos. Antes de sair olhei para o espelho e então lembrei-me do que o meu pai dissera quando pôs o espelho lá: "Há espelhos que nos mostram o que se passa no coração".

Álvaro Magalhães, "O Espelho"
in O Homem Que Não Queria Sonhar, Ed. ASA



Notas:
desfalecer: enfraquecer; esmorecer
enlaçaram: uniram.



1. Atenta na primeira frase do texto e nas reacções da personagem face ao senti­mento que nutre pela Susana.

1.1. Como caracterizas o narrador a partir dessas manifestações?

1.2. Completa a frase seguinte, pensando que a personagem tinha características completamente opostas. Eu gostava tanto da Susana que

2. Por vezes, lemos "coisas" no olhar das pessoas, como se diz no primeiro parágrafo. Regista "coisas" que se "possam ler" nos olhos:

de um amigo

de um pai

de um professor

de uma mãe

de um desconhecido

3. Após uma segunda leitura do texto serás capaz de perceber a importância do espelho referido a partir do segundo parágrafo.

3.1. De entre as palavras dadas, sublinha aquela que define melhor a importância do espelho na história. Depois, justifica a tua opção.

luz brilho vidro reflexo imagem ilusão

4. Explica a utilização da conjunção coordenativa adversativa "porém" no terceiro parágrafo.

5. A quem é que o narrador dirige a palavra no primeiro momento de discurso directo?

6. A expressão "Nesse instante", no décimo primeiro parágrafo, marca a transição da personagem de um mundo para o outro. Identifica esses mundos.

7. Relaciona a frase do pai do rapaz com o sentido global do texto.