27.2.11

O cego e o mealheiro

Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantidade de moedas. Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro duma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo duma figueira. Ele lá sabia o lugar, e, quando arranjava outra boa maquia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro.
Ora um vizinho espreitou-o, viu onde é que ele tinha a panela e foi lá e roubou tudo. Quando o cego deu pela falta, ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo para ver se arranjava maneira de tornar a apanhar o seu dinheiro. Pôs-se a considerar quem seria o ladrão e achou que por força teria de ser o vizinho. Tratou de ir à fala com ele e disse-lhe:
– Olhe, meu amigo, quero contar-lhe uma coisa muito em particular, que ninguém nos ouça.
– Então o que é, senhor vizinho?
– Eu ando doente, e isto há viver e morrer. Por isso quero dar-lhe parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há-de ficar tudo para si, que sempre tem sido um bom vizinho e me tem tratado bem. Ainda tinha aí num buraco mais umas moedas de ouro e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.
O vizinho, ao ouvir aquilo, agradeceu-lhe muito a intenção, e naquela noite tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro aonde ela estava, no fito de apanhar o resto do tesouro. Quando bem entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e levou-a para casa. Depois desatou num grande berreiro, para que o vizinho o ouvisse:
– Roubaram-me! Roubaram-me tudo!
E daí em diante guardou as suas moedas num sítio onde nunca ninguém soube.

Teófilo Braga, Contos tradicionais portugueses



a) Agora que já analisou as atitudes do cego, caracterize-o psicologicamente.
b) Indique os tipos de frase utilizados e apresente um exemplo para cada um.
c) Indique os tempos verbais mais utilizados e justifique o seu emprego.
d) Apresente alguns registos populares neste texto.