18.2.11

Colonização


Em discussão muito animada, Jaime e Raul prolongam uma reunião no túnel.
- As máquinas são as nossas piores inimigas. Colonizam o Homem - afirma um.
- Não colonizam o Homem mais do que o Homem se coloniza a si mesmo - contrapõe o outro.
- Se não fossem as máquinas, não haveria este subterrâneo. Temos de o destruir para nos libertarmos. Ou negas? - desafia Jaime.
- Não percebo como podes argumentar contra as máquinas e ter uma moto, uma bela máquina, para correr de escape aberto - critica Raul.
- Encara isso como quiseres! Mas repara: há ecologistas que fumam e não deixam por isso de ser ecologistas. E até há pacifistas capazes de se defenderem de armas na mão! - responde Jaime.
Os outros, em roda da chama intermitente do isqueiro - luz fraca, a is melhor para não atrair as atenções -, seguem atentamente o diálogo. Sem nele intervirem, esperam o aparecimento da solução que procuram.
- Cada máquina que temos atrofia-nos alguma parte ou função do nosso corpo, já reparaste? Desmobiliza-o e mata-o na medida em que o substitui. Daqui a pouco nem teremos mais trabalho de mastigar, por melhores que sejam os nossos dentes, e depois nem teremos o trabalho de engolir, de carregar em botões... As máquinas começaram por facilitar o trabalho do Homem e hoje querem fazer tudo. É de mais!
- Mas, Jaime, nesse caso a tua moto desmobiliza-te as pernas!
- Não! Desenvolve-mas, permite-me ir mais longe e mais depressa.
- E precisas realmente de ir mais longe e mais depressa para quê?
- Ora! A questão é esta, Raul: a quem fica a pertencer o nosso corpo desmobilizado, semimorto? A nós próprios? Às máquinas?
- Não te canses a repetir o que já disseste: um corpo desmobilizado fica a pertencer ao que o desmobiliza. É a história da bengala a rir-se da perna. Em resumo, achas que as máquinas nos colonizam. Mas, Jaime, consideras que um tijolo, por exemplo, tem culpa de rachar a cabeça a uma pessoa à qual é arremessado, em vez de servir para a construção da parede de uma casa nova? Achas que a máquina é culpada do mau uso que lhe dão? (...)
Edgar assiste ao debate, pensativo. Não apoia um dos companheiros contra o outro. Ambos discutem questões idosas, sempre moças, e ele sente que, apesar de se contraporem, as suas ideias se completam mais do que se opõem. Ambos têm boa razão sem a terem completamente.
- Por mim - intervém ele, aproveitando a pausa - penso que não adianta destruir máquinas apenas porque são máquinas. Vale a pena, sim, inutilizar máquinas que nos danem. Mas o melhor seria, nesse caso, não as destruirmos às cegas, sem antes procurarmos colocá-las ao nosso serviço.

Arsénio Mota, Os Segredos do Subterrâneo, Ed. Caminho




1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. No subterrâneo estavam:

três personagens

duas personagens

várias personagens

1.2. As personagens estavam:

prisioneiras

escondidas

em reunião

2. Divide o texto em duas partes, delimita-as e sintetiza-as.

3. Transcreve os verbos caracterizadores do discurso directo.

4. Na argumentação, as personagens usam verbos como facilitar e desenvolver, mas também outros de sentido contrário. Faz o levantamento destes últimos.

5. Que posições assumem, respectivamente, Jaime e Raul?

6. Explica o sentido da frase "/Ambos discutem questões idosas, sempre moças...".

7. Caracteriza a postura de Edgar, comparando-a com a dos amigos.

8. Com base no texto, e também com a ajuda de transcrições, esclarece, num comentário com cerca de setenta palavras, a frase:

Há máquinas e máquinas!