18.2.11

Artes Visuais


Artes Visuais
Júlio Resende: pintura sem idade
Por: Rocha de Sousa


Sou um persistente visitante da pintura de Júlio Resende, sem dúvida um dos mais importantes artistas contemporâneos portugueses. Desde uma longínqua exposição na Galeria Divulgação, à Estefânia, passando pelos livros que entretanto reproduziam coisas anteriores, tudo fui seguindo na medida do possível, não exaustivamente, mas no tempo que podíamos partilhar, o artista e eu, incluindo a notícia, as ilustrações vindas do Porto, do Brasil, de Cabo Verde, um testemunho patrimonial já sem idade, páginas da História, o futuro, os afectos entretanto. Por isso é que não tomo como crítica de arte este artigo feito demasiado sobre a hora, mas antes como a carta que se escreve ao amigo e nela o saudamos por estar presente, por já viver fora das cronologias e dos pragmatismos.
A exposição de parte da obra de Júlio Resende, colecção do Millennium, foi organizada na Sociedade Nacional de Belas-Artes e sobre ela muito pouco se disse. (...) Resende foi aparecendo muito de passagem, não há um grande filme sobre ele, mas todos nos lembramos de Helena Almeida, Julião Sarmento, Júlio Pomar. E desta vez, em Lisboa, com a colecção a que nos referimos, é exposta a grande obra parietal Ribeira Negra, um percurso que envolve 120 m2 e cuja grandeza estética tem um lugar único no nosso moderno património deste domínio.



Ribeira Negra

A peça mural não grita entre restos de uma guerra feia, como a Guernica, mas os espanhóis, se a possuíssem, não minimizariam - esse monumento catártico que ensaia um enorme travelling pela vida de uma população urbana, ou da margem, ou do Norte, ou da melancolia meridional e da escassez, feito de encadeados entre o negro, o branco e admiráveis cinzas de admiráveis trânsitos visuais, síntese, desdobramento, um ruído que apenas desabrocha no interior das nossas cabeças, e o resto, que é tudo, serve para um olhar lateral e comovido, paragens, fragmentos deslumbrantes, a realidade, o sonho, a faina fluvial, o Douro, as fotografias meio rasgadas e sobrepostas na mente: Do rio, no rio, o barco antigo descobre os acenos. Crianças. Mulheres carregadas. Cães vadios e sombras e arcadas e travessas de madeira, âncoras do mundo. Aqui não há tempo nem espaço para falar desta obra mal-amada E assim não é difícil perceber, num pequeno texto de Resende para este catálogo, as seguintes palavras: «Toda a repreensão em causa própria seria inútil». «Como se constata, percurso longo que a natureza aleatória da apresentação não especifica, nem essa era a intenção. Compensando tal hiato, a Ribeira Negra, obra de 1984, é apresentada em Lisboa, com os seus 120 m2. Aconteceu num registo instintivo que motivou um mural em grés fixado ulteriormente na cidade do Porto. Não é de forma intrusa que figura na presente mostra, porque confirma os fins últimos da Pintura que sempre defendi: o seu objectivo mural».
Lemos isto, com esta simplicidade, e da moral falaremos um dia.

in Jornal de Letras, 26 de Abril a 9 de Maio de 2006



1. Rocha de Sousa avalia a pintura de Júlio Resende e afirma que este artigo não pode ser considerado propriamente «crítica de arte». Justifica.

2. Identifica o motivo pelo qual, na opinião de Rocha de Sousa, a pintura de Júlio Resende tem sido devidamente valorizada. Justifica a resposta.

3. O autor aprecia, particularmente, a peça mural Ribeira Negra.
3.1 Explica o significado da expressão «esse monumento catártico que ensaia um enorme travelling pela vida de uma população urbana».
3.2 Refere as temáticas que a obra, artisticamente, desenvolve e selecciona os elementos nela representados.

4. Na parte do artigo designada por Ribeira Negra, o autor utiliza um discurso valorativo que assenta em várias figuras de estilo. Transcreve expressões que evidenciem o uso de:
a) enumeração
b) antítese
c) polissíndeto
4.1 Distingue as figuras de sintaxe das de nível interpretativo. Justifica.

5. Regista os vocábulos e expressões que revelam a apreciação crítica do articulista.


II

1. Na expressão «a carta que se escreve a um amigo e nela o saudamos», identifica os elementos anafóricos que sustentam a coesão do enunciado.

2. Na parte do texto Ribeira Negra, encontram-se frases nominais. Transcreve duas.
2.1 Explicita a sua expressividade.

3. Rocha de Sousa joga com as palavras «mural» e «moral».
3.1 Designa estes vocábulos tendo em conta a sua semelhança fonética e gráfica.

4. Quando nos deslocamos, lenta e gravemente, ao longo da Ribeira Negra, sabemos que há muitas mais obras expostas na sala.
4.1 Classifica as orações da frase.
4.2 Identifica as funções sintácticas dos vocábulos destacados, estabelecendo a correcta correspondência entre a coluna A e a coluna B:

Coluna A
a) «nos»
b) «lenta e gravemente»
c) «na sala»

Coluna B
1. modificador adverbial
2. modificador preposicional
3. complemento directo


III

Imagina uma entrevista a uma pessoa que admires (ex.: professor, cientista, artista, desportista). Escreve o texto, aplicando os teus conhecimentos sobre essa tipologia textual.