7.1.11

Piropo

A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta última parte é muito importante. Hoje em dia, porém, os rapazes de Portugal já não correm atrás das raparigas – andam com elas. A diferença entre «correr atrás» e «andar com» é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sonolência. O amor não pode ser somente uma partida de golfe, em que dois jarretas caminham devagar em torno de alguns buraquinhos. Tem de ser, pelo menos, os 400 metros barreiras.
Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o cool da contemporaneidade “Vamos aí?”. Ou simplesmente “'Bora aí?”. Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e boçal “Bute?”. “Bute” significa qualquer coisa como «Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas». Mas, como os rapazes só dizem «Bute?», são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de interpretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um «Bute» terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?
Isto não pode ser, até porque há uma tradição a manter. Imagina-se alguma rapariga a dizer «Ai, Lena... quando ele disse "Bute" subiu-me o coração à boca!». A verdade é que o coração é um órgão bastante preguiçoso e só se dá ao trabalho de subir à boca quando se lhe dão excelentes motivos para isso.
De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta tomar o facto por dado e dizer simplesmente «Bute» – é preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja.

Miguel Esteves Cardoso, A Causa das Coisas, Assírio e Alvim




I

Completa cada uma das afirmações com uma das propostas (A, B, ou C).

1. O assunto em que se centra este texto é:
A. a atitude dos rapazes no seu relacionamento sentimental com as raparigas.
B. o desinteresse que os rapazes manifestam pelas raparigas.
C. a dificuldade dos rapazes em articularem frases que agradem às raparigas.

2. Segundo o autor, as raparigas têm de ter
A. muita paciência para compreender os rapazes.
B. muita economia de expressão.
C. muita imaginação para “ouvir” frases de amor que não foram ditas.

3. Ainda segundo o autor, o ardor e o sentido poético dos rapazes
A. assustam as raparigas.
B. não estão de acordo com as nossas tradições culturais.
C. são indispensáveis para a sedução e encantamento amoroso.