7.1.11

«O Principezinho» de Antoine de Saint-Éxupery


No dia seguinte o principezinho voltou.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro da tarde, às três, já eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu também - disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um ritual. Dançam à quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Assim, posso ir passear até à vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua - disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! - disse o principezinho.
- Vou - disse a raposa.
- Então, não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. – Por causa da cor do trigo...
Depois ela acrescentou:
- Anda, vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho lá foi ver as rosas outra vez:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem vós cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Sois belas, mas vazias - disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Claro que a minha rosa, para um transeunte qualquer, é perfeitamente igual a vós. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus debaixo de uma redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (excepto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Porque, ela é a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus - disse ele...
- Adeus - disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade - disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para jamais se esquecer.


O Principezinho, Antoine Saint Exupéry
(adaptado)



I


1. “Era melhor teres vindo à mesma hora”.
1.1. Porque tem a raposa esta opinião?

2. A determinado momento, a raposa está quase a chorar. Porquê?

3. O Principezinho pensa que fez mal em prender a raposa a si, mas a raposa tem uma opinião diferente: “Ai, isso é que ganhei! Por causa do trigo...”
3.1. O que ganhou afinal a raposa?

4. De acordo com a raposa, o que torna uma coisa importante para nós?

5. Explca por palavras tuas o segredo da raposa.

6. Atribui um título ao texto e justifica a escolha.

7. Consideras que foi proveitosa para o principezinho a vinda à terra? Justifica.