12.1.11

O dia em que eu nasci, morra e pereça




O dia em que eu nasci, morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões


I

1. Identifica o tema do poema.
2. O sujeito lírico começa por manifestar um desejo.
2.1. Refere-o.
2.2. Menciona o recurso estilístico utilizado para lhe conferir maior destaque.
2.3. Procura no poema os versos que apresentam a causa desse desejo.
3. Relaciona o estado de espírito do eu poético com a ambiência descrita.
4. Demonstra que a atitude dos outros face ao mundo apresentado é distinta da do sujeito poético.
5. Propõe uma divisão do poema em partes, fundamentando a tua resposta com critérios temáticos e gramaticais.
6. Sugere um título adequado à composição, explicando as razões da tua escolha.
7. Lê o texto informativo seguinte, dedicado ao soneto de Camões.


Auto-retrato de Camões: o soneto "O dia em que eu nasci..."
Este texto coloca-nos de chofre em contacto com o que há de mais íntimo e profundo em Camões, isto é, em contacto com o próprio poeta.
E como? Em primeiro lugar, pela estreita relação Camões-poeta e Camões-personagem, Camões-sujeito e Camões-objecto da sua poesia. Depois, pela situação de desespero que aparece como ponto de chegada de uma série de temas: ilusão, engano, desengano, sofrimento, frustração... Em terceiro lugar, pelo tom de ira e furor, de revolta cega, e contudo lúcida, especificamente camoniana. E depois, ainda, por temas muito característicos e definidores da visão da vida do poeta: a ligação do nascimento e da morte; as relações ambíguas com a mãe; a visão de si próprio como um ser desmesurado, mesmo monstruoso; a sensação de desgraça maior.

MATOS, Maria Vitalina Leal de, 1987.
Ler e Escrever. Lisboa: IN-CM


7.1. Assinala a frase ou expressão que, no segundo parágrafo, confirma o carácter auto-biográfico do texto camoniano e explica-a.
7.2. Retira do poema versos que ilustrem os temas enunciados e destacados no texto.