28.1.11

Laranjal



Era um laranjal de folhas verdes, brilhantes. Como se um pincel com verniz as tivesse pintado uma a uma. E um dia veio uma menina pelo laranjal e sentou-se debaixo de uma laranjeira. Tinha os cabelos negros e caídos até aos ombros e um avental de flores amarelas.
E sentou-se e abriu um livro. Era um livro de poemas: poemas são palavras que nos lembram que somos vivos, que temos olhos, ouvidos, paladar, duas mãos que poisam em troncos rugosos, na seda da própria pele.
E a menina começou a ler. O perfume da terra misturava-se com o perfume das folhas do laranjal. Mas eram só folhas? Que perfume...
E a menina poisou o livro sobre o avental de flores.
Poema, poema, porque rio? Poema, poema, porque choro também? Porque choro também? Porque cheiro estas flores? São do avental ou do laranjal?
Brancas, brancas, perfumadas.
Vem meu pai do mar, meu pai é pescador. Mas já não é o sabor do sal que anda no ar perfumado.
Espera-me minha mãe em casa com um cesto de pão na mão (que belo é o cheiro do pão cozido!) e uma taça de mel na outra mão. Mel dourado.
E a enorme lâmpada do Sol faz nascer mais flores. Flores brancas de doce, estranho perfume. Tão suave, tão bom.
E a menina leva a mão à cabeça de negros cabelos. E com os dedos, pelo tacto, vê na sua cabeça uma grinalda de flores brancas.
Agora já não é o pai que vem do mar. Nem a mãe que a espera em casa.
Ela, menina, vai casar. A sua casa verde, verde, é o laranjal. Sua coifa seu chapelinho de flores. Seu manto seu avental de flores. (...)
E, depois, vem o luar tão branco como as flores. E vem a noite e diz poemas azuis às folhas verdes tão escuras agora. Diz poemas às flores do laranjal, às flores do avental da menina.
E caem as flores e nascem os frutos.
Frutos que eram sóis pequenos. Redondos, quase um pequeno fogo redondo que fosse fechado na nossa mão. Primeiro a casca rugosa, fresca, que apetece partir. (...)
E a menina come um gomo, outro gomo. É sol! sol! Oh! o paladar. E ri a boca vermelha da menina.
E as folhas verdes, cada vez mais verdes, riem.
Vem meu pai, vem minha mãe, vem meu noivo?
Um dia virá meu filho?
E a menina estende-lhe uma laranja em sua mão. Vermelhinha, pequeno sol!
- Queres? É Sol, meu Filho!
São cinco os sentidos: a vista, o ouvido (não ouvem a música das folhas ao vento no laranjal?). E o olfacto, o paladar e o tacto. Tudo num fruto.
E a menina ri. Senta-se de novo debaixo de uma laranjeira.
Tem ainda uma grinalda de flores brancas nos cabelos negros.
E o livro está fechado sobre o avental de flores. O livro de poemas.


Matilde Rosa Araújo, O Sol e o Menino dos Pés Frios,
Livros Horizonte




1. Completa a frase com a opção correcta.

1.1. Todo o texto é como que um poema à vida cheia de sensações, porque