29.1.11

Ato II, cena XIV e XV



CENA XIV

ROMEIRO — Hoje há-de ser. Há três dias que não durmo nem descanso nem pousei esta cabeça nem pararam estes pés dia nem noite, para chegar aqui hoje, para vos dar meu recado… e morrer depois… ainda que morresse depois; porque jurei… faz hoje um ano… quando me libertaram, dei juramento sobre a pedra santa do Sepulcro de Cristo…
MADALENA — Pois éreis cativo em Jerusalém?
ROMEIRO — Era; não vos disse que vivi lá vinte anos?
MADALENA — Sim, mas…
ROMEIRO — Mas o juramento que dei foi que, antes de um ano cumprido, estaria diante de vós, e vos daria da parte de quem me mandou…
MADALENA (aterrada) — E quem vos mandou, homem?
ROMEIRO — Um homem foi, e um honrado homem… a quem unicamente devi a liberdade… a ninguém mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.
MADALENA — Como se chama?
ROMEIRO — O seu nome, nem o da sua gente nunca o disse a ninguém no cativeiro.
MADALENA — Mas, enfim, dizei vós…
ROMEIRO — As suas palavras trago-as escritas no coração com as lágrimas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me caíram nestas mãos, que me correram por estas faces. Ninguém o consolava senão eu… e Deus! Vede se me esqueceriam as suas palavras.
JORGE — Homem, acabai!
ROMEIRO — Agora acabo; sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: «Ide a D. Madalena de Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis… aqui está vivo… por seu mal… e daqui não pode sair nem mandar-lhe novas suas, de há vinte anos que o trouxeram cativo».
MADALENA (na maior ansiedade) — Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem, esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha sido… levaram-no aí de donde?… de África?
ROMEIRO — Levaram.
MADALENA — Cativo?
ROMEIRO — Sim.
MADALENA — Português!… cativo da batalha de?…
ROMEIRO — De Alcácer-Quibir.
MADALENA (espavorida) — Meu Deus, meu Deus! Que se não abre a terra debaixo de meus pés… Que não caem estas paredes, que me não sepultam já aqui?…
JORGE — Calai-vos, D. Madalena! A misericórdia de Deus é infinita. Esperai. Eu duvido, eu não creio… estas não são cousas para se crerem de leve. (Reflecte, e logo como por uma ideia que lhe acudiu de repente.) Oh ! inspiração divina… (chegando ao romeiro). Conheceis bem esse homem, romeiro, não é assim?
ROMEIRO — Como a mim mesmo.
JORGE — Se o víreis… ainda que fora noutros trajos… com menos anos, pintado, digamos, conhecê-lo-eis?
ROMEIRO — Como se me visse a mim mesmo num espelho.
JORGE — Procurai nesses retratos, e dizei-me se algum deles pode ser.
ROMEIRO (sem procurar, e apontando logo para o retrato de D. João) — É aquele.
MADALENA (com um grito espantoso) — Minha filha, minha filha, minha filha!… (Em tom cavo e profundo.) Estou… estás… perdidas, desonradas… infames! (Com outro grito do coração.) Oh! minha filha, minha filha!… (Foge espavorida e neste gritar.)

CENA XV
JORGE e o ROMEIRO, que seguiu MADALENA com os olhos, e está alçado no meio da casa, com aspecto severo e tremendo

JORGE — Romeiro, romeiro, quem és tu?
ROMEIRO (apontando com o bordão para o retrato de D. João de Portugal) — Ninguém!
(Frei Jorge cai prostrado no chão, com os braços estendidos diante da tribuna. O pano desce lentamente.)

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa



I

1 - Localiza as cenas na estrutura interna da obra, indicando também os acontecimentos posteriores aos apresentados nas cenas transcritas.

2 - Explica a importância destas cenas no conjunto da acção da obra.

3 - Considera a opinião de Garrett sobre a sua obra, segundo a qual “pela índole” esta há-de sempre ser uma tragédia. Indica e justifica com que parte da tragédia as cenas transcritas se identificam.

4 - A chegada do Romeiro é desencadeadora de consequências importantes para a intriga da obra.

4.1 - Caracteriza e justifica o estado de espírito e as reacções de Madalena à chegada do Romeiro.
Apresenta três exemplos.

4.2 - O Romeiro “vem do passado”. Como se identifica no presente? Interpreta o simbolismo de tal designação.


II

A obra de Almeida Garrett FREI LUÍS DE SOUSA tem apaixonado muitos críticos desde que foi feita e inúmeras têm sido as opiniões sobre ela. Tendo em conta os textos lidos na aula e extra-aula sobre a obra em questão, demonstra a veracidade da afirmação seguinte num texto com 200 palavras:

“Tal como na tragédia clássica, também o fatalismo é uma presença constante. O Destino acompanha todos os momentos da vida das personagens, apresentando-se como uma força que as arrasta de forma cega para a desgraça. É ele que não deixa que a felicidade daquela família possa durar muito.”