22.1.11

Ato II, cena VII, VIII e IX

Lê, atentamente, o excerto seguinte de Frei Luís de Sousa.

Cena VII
Manuel de Sousa, Madalena, Jorge e Maria, entrando com Telmo e Doroteia.

Maria - Então vamos, meu pai.
Manuel- Pois vamos.
Jorge - E são horas, vão. À Ribeira é um pedaço de rio; e até às sete, o mais, tu precisas de estar de volta, à porta da Oira, que é onde irão ter os nossos padres à espera do arcebispo. Eu cá me desculparei com o prior. Vão.
Maria - Minha mãe! (Abraçando-a.) Então, se chorais assim, não vou.
Manuel - Nem eu, Madalena. Ora pois! Eu nunca te vi assim.
Madalena - Porque nunca assim estive... Vão, vão... adeus! Adeus, esposo do meu coração! Maria, minha filha, toma sentido no ar, não te resfries. E o sol... não saias debaixo do toldo no bergantim. Telmo, não te tires de ao pé dela. Dá-me outro abraço, filha. Doroteia, levais tudo? (Examina uma bolsa grande de damasco que Doroteia leva no braço.) Pode haver qualquer coisa, molhar-se, ter frio para a tarde... (Tendo examinado a bolsa.) Vai tudo: bem! (Baixo a Doroteia.) Não me apartes os olhos dela, Doroteia. Ouve. (Fala baixo a Doroteia que lhe responde baixo também: depois diz alto.) Está bem.
Manuel - Não tenhas cuidado, vamos todos com ela.
(Abraçam-se outra vez. Maria sai apressadamente e para a mãe não ver que vai sufocada com choro.)

Cena VIII
Manuel de Sousa, Madalena e Jorge.

Madalena - (Seguindo com os olhos a filha, e respondendo a Manuel de Sousa.)
Cuidados!... eu não tenho já cuidados. Tenho este medo, este horror de ficar só... de vir a achar-me só no mundo.
Manuel - Madalena!
Madalena - Que queres? Não está na minha mão. Mas tu tens razão de te enfadar com as minhas impertinências. Não falemos mais nisso. Vai. Adeus! Outro abraço. Adeus!
Manuel - Oh! querida mulher minha! Parece que vou eu agora embarcar num galeão para a Índia... Ora vamos: ao anoitecer. Antes da noite, aqui estou. E Jesus! Olha a condessa de Vimioso. Esta Joana de Castro, que a nossa Maria tanto deseja conhecer... olha se ela faria esses prantos quando disse o último adeus ao marido...
Madalena - Bendita ela seja! Deu-lhe Deus muita força, muita virtude. Mas não lha invejo, não sou capaz de chegar a essas perfeições.
Jorge - É perfeição verdadeira; é a do Evangelho: “Deixa tudo e segue-me”.
Madalena - Vivos ambos... sem ofensa um do outro, querendo-se, estimando-se e separar-se cada um para sua cova! Verem-se com a mortalha já vestida, e..., vivos, sãos... depois de tantos anos de amor... e convivência... condenarem-se a morrer longe um do outro, sós, sós! E quem sabe se nessa tremenda hora... arrependidos!
Jorge - Não o permitirá Deus assim... Oh! não. Que horrível coisa seria!
Manuel - Não permite, não. Mas não pensemos mais neles: estão entregues a Deus... (Pausa.) E que temos nós com isso? A nossa situação é tão diferente. (Pausa.) Em todas nos pode Ele abençoar. Adeus, Madalena, adeus! Até logo! Maria já lá vai no cais a esta hora... Adeus! Jorge, não a deixes.
(Abraçam-se: Madalena vai até fora da porta com ele.)

Cena IX
Jorge, só.

Eu faço por estar alegre e queria vê-los contentes a eles... mas não sei já que diga do estado em que vejo minha cunhada, a filha... Até meu irmão o desconheço! A todos parece que o coração lhes adivinha desgraça... E eu quase que também já se me pega o mal. Deus seja connosco!

Frei Luís de Sousa, Almeida Garrett


I

Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.

1. Comenta a importância das cenas apresentadas, atendendo ao clímax que se aproxima.

2. Neste excerto apresenta-se uma situação idêntica à que vai acontecer a D. Madalena e a Manuel de Sousa Coutinho.
2.1. Identifica e refere qual a sua importância neste momento da obra.

3. Indica qual o papel de Frei Jorge nas cenas apresentadas.

4. Compara o comportamento de D. Madalena com o de Manuel de Sousa Coutinho, justificando com expressões textuais.

5 . Num texto, entre oitenta a cento e vinte palavras, apresenta o momento da obra Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, que, para ti, se tenha revelado mais emotivo.


II

Lê, atentamente, o texto que se segue.

Num importante estudo que consagrou ao romantismo, René Wellek defende, contra o parecer de Arthur Lovejoy e de outros críticos, que o romantismo constitui de facto um movimento unificado, oferecendo através da Europa «a mesma concepção da poesia, das obras e da natureza da imaginação poética, a mesma concepção da natureza e das suas relações com o homem e, basicamente, o mesmo estilo poético, com um uso da imagística, do simbolismo e do mito que é claramente distinto do do neoclassicismo do século XVIII». Na verdade, se se verificam assincronias e diferenças mútuas acentuadas entre as várias literaturas românticas europeias, não é menos certo que em todos os movimentos românticos nacionais se revelam alguns princípios basilares que permanecem constantes e que conferem unidade substancial ao período romântico. Os princípios mencionados por René Wellek – idêntica concepção da poesia, da imaginação poética, da criação artística, etc. – são inquestionavelmente de primeira importância, mas promanam de um outro princípio mais geral que constitui o fundamento primário de toda a estética e de toda a psicologia românticas – uma nova concepção do eu, uma nova forma de Weltanschauung, radicalmente diferentes da concepção do eu e da Weltanschauung típicas do racionalismo iluminista.

Aguiar e Silva, Vítor Manuel de, Teoria da Literatura, Livraria Almedina, 1982


Selecciona a opção correcta.

1. Na frase “(…) que o romantismo constitui de facto um movimento unificado (…)”, a palavra assinalada apresenta um valor lógico
a) de retoma.
b) comparativo.
c) completivo.
d) causal.

2. O referente retomado pelo vocábulo assinalado em “(…) é claramente distinto do do neoclassicismo do século XVIII” é
a) “mito”
b) “simbolismo”
c) “uso”
d) “estilo poético”

3. Na frase “(…) em todos os movimentos românticos nacionais se revelam alguns princípios
basilares”, o segmento sublinhado corresponde
a) ao sujeito.
b) ao complemento directo.
c) ao predicativo do sujeito.
d) ao complemento indirecto.

4. O vocábulo sublinhado em “(…) que permanecem constantes (…)” corresponde
a) ao vocativo.
b) a um modificador.
c) ao complemento directo.
d) ao predicativo do sujeito.

5. O segmento frásico entre travessões, "– são inquestionavelmente de primeira importância, mas promanam de um outro princípio mais geral que constitui o fundamento primário de toda a estética e de toda a psicologia românticas –"
a) serve de confirmação ao que foi apresentado anteriormente.
b) ilustra o que foi apresentado anteriormente.
c) contradiz a ideia enunciada anteriormente.
d) prepara o enunciado que surge posteriormente.

6. O sujeito do predicado da frase “(…) mas promanam de um outro princípio (…)” é
a) nulo subentendido.
b) “Os princípios mencionados por René Wellek”
c) nulo indeterminado.
d) “idêntica concepção da poesia, da imaginação poética, da criação artística (..)”

7. Identifica no texto, indicando também o número da linha, um exemplo para:
a) pronome relativo.
b) conjunção subordinativa condicional.
c) advérbio de modo.
d) conjunção coordenativa adversativa.
8. Une os dois pares de frases que se seguem, com um articulador com o valor lógico
apresentado, fazendo as alterações que consideres necessárias.

a) Retoma/relativo
a) A personagem romântica vive mergulhada numa melancolia pessimista.
a’) Madalena é uma personagem romântica.

b) Consecutivo
b) São vários os indícios trágicos ao longo da obra Frei Luís de Sousa.
b’) O leitor de Frei Luís de Sousa deduz facilmente da catástrofe que encerra a obra.


III

Por motivos políticos, Almeida Garrett teve que se ausentar do seu país.
Actualmente, a saída dos países de origem ainda acontece, mas cada vez mais ligada a investimentos económicos, realização de estudos, actividades profissionais, entre outros.


Num texto bem estruturado, com um mínimo de cento e cinquenta e um máximo de duzentas e cinquenta palavras, apresenta uma reflexão acerca da questão da emigração, para a qual aponta a frase dada. Para fundamentares o teu ponto de vista, recorre, no mínimo a dois argumentos, ilustrando cada um deles com,pelo menos, um exemplo significativo.