5.12.10

Um certo Natal antigo


A noite era uma ruína. Eu também. Esperava o autocarro e fazia muito frio. Na paragem, sentado no banco corrido, um homem pesado e triste olhava para o infinito, o que quer que fosse esse infinito. Fora ao hospital, visitar a minha mulher ali internada. Quebrara a perna em três sítios, tinha gesso até quase ao baixo-ventre e sofria dores horrorosas. Era uma mulher estóica, porém. Quando me via aproximar da cama onde estendia o sofrimento e o temor, procurava ocultá-los a fim de não aumentar as minhas preocupações.
«Hoje estou muito melhor», dizia.
Mas emergia, leve, volátil e trágico, um espaço vazio que eu tentava decifrar examinando-a atentamente. Por vezes dormitava e eu vigiava-lhe os leves movimentos, a respiração suave, a serenidade impressionante do rosto.
«Os médicos ainda não te disseram quando tens alta?»
Ela encolhia os ombros e o semblante mergulhava, ainda mais profundamente, nas suas dilaceradas angústias. Olhava-me:
«Não fizeste a barba. Tens comido bem?» E eu:
«Só como bem a comida por ti cozinhada. O resto...»
A enfermaria não era grande. Mas estava atulhada de doentes que gemiam e soltavam suspiros. Pensei: um dia destes tenho de escrever acerca de pessoas num hospital. Já estive numa situação idêntica, e nada escrevi dessa experiência. Admito ser assaltado por certo pudor em falar disso. Há coisas que nos acontecem, e sobre as quais devemos manter discrição e recato.
Vivo de vender palavras e, ocasionalmente, faltam-me ideias. Não é de estranhar: as exigências do ofício e as dificuldades da vida obrigam-me a redigir textos com vários registos. Recordo-me de, certa vez, num artigo sobre gente inerme e temente, ter escrito esta frase modesta e melancólica: «O homem suporta tudo, menos a solidão». Uma enfermaria, mesmo cheia de gemidos, gritos e suspiros, é o próprio mundo da solidão. O texto que escreverei deverá ser constituído por só parágrafos curtos e intensos. E não há que ter medo do adjectivo. Azorín, o grande espanhol, dizia que a literatura é o adjectivo. Claro que também posso dizer que a literatura é o substantivo ou o verbo. O que têm as citações: podemos removê-las para todo o lado e atribuir-lhes o sentido que desejarmos.
A enfermaria dispunha de janelas rectangulares e amplas. Viam-se as lantejoulas do Natal e pressentia-se o rumo confuso da cidade. A cabeceira da cama onde estava a minha mulher quase se encostava à janela. E ela não via as iluminações.
«As luzes nas ruas já estão acesas, não estão? É o primeiro Natal na minha vida que não passo em casa, nem vou à missa na Conceição Velha».
«Até lá, talvez; quem sabe?»
«Eu. Sei bem como estou e isto não está a correr bem.»
Arrependeu-se logo do que dissera. Deteve o olhar em mim, longamente, como que a pedir desculpa. Eu não sabia o que falar. «Acabaram as visitas», quase gritava, agora, uma assistente de enfermagem. «Já passa da hora.»
Recordo tudo isto num tropel de imagens e sons. Consulto o relógio de pulso, encaro o homem pesado e triste, no banco corrido da só paragem de autocarros, e que parece existir num outro plano. Sento-me a seu lado, sem deixar de o olhar.
«É assim. Sempre atrasado. Nunca percebi porque é que a Carris não cumpre os horários», digo, sem deixar de o fitar. E assusto-me um pouco quando reparo que o corpo do homem tombou para o lado. Toco-lhe. Ele parece sacudido daquele estranho torpor. A luz crua do candeeiro público incide no seu ao rosto lívido.
«Precisa de alguma coisa?», pergunto.
Move lentamente a cabeça, examina-me de alto a baixo. Volta à posição anterior. Diz:
«Preciso. Preciso de um amigo».

Baptista-Bastos, in revista Montepio, Dezembro de 2005


I

1. «A noite era uma ruína. Eu também.»
1.1 Interpreta a metáfora que a primeira frase encerra.
1.2 Refere o estado de espírito de «eu».

2. No texto, Baptista-Bastos escreve sobre um tempo passado, recordando as ocorrências relativas à hospitalização da sua mulher.
2.1 Apresenta a caracterização da companheira do cronista.

3. No texto, Baptista-Bastos lança um olhar crítico sobre a enfermaria do hospital.
3.1 Transcreve o vocábulo que evidencia a subjectividade e a intencionalidade crítica do autor.
3.2 Esclarece porque não registou a sua experiência.

4. Explica o sentido da afirmação «Vivo de vender palavras».

5. O cronista afirma que vai escrever um texto sobre o universo que observa no hospital.
5.1. Caracteriza esse registo.

6. O sujeito de enunciação recorda o ambiente do hospital.
6.1 Transcreve expressões relativas às imagens observadas e ao ruído que o perturbava.
6.2 Esclarece o sentido da afirmação «num tropel de imagens e sons» .

7. Na paragem do autocarro encontrou um homem «pesado e triste».
7.1 Refere o que tinha o autor em comum com esse desconhecido.
7.2 Explicita o sentido da expressão: «parece sacudido daquele estranho torpor»

8. Atenta na parte superior da crónica.
8.1 Explica a presença da expressão «O gosto pela liberdade» seguida do nome do autor.
8.2 Identifica o título desta crónica e relaciona-o com a temática nela desenvolvida.


II

1. «Os médicos ainda não te disseram quando tens alta?»
Atenta na resposta da mulher à pergunta anterior, notando os gestos e a expressão fisionómica.
1.1. Esclarece se houve eficácia no acto comunicativo. Justifica.
1.1.1 Refere a máxima conversacional foi posta em causa. Justifica.

2. Atenta nas seguintes frases:
a) «Os médicos ainda não te disseram quando tens alta?»
b) «Não fizeste a barba.»
c) «A enfermaria não era grande.»
2.1 Como se observa através dos exemplos, é frequente, no texto, a polaridade negativa. Explicita o valor semântico das frases transcritas.
2.2 Passa para o discurso indirecto as frases a) e b).
2.3 A partir dos verbos introdutórios do discurso indirecto, conclui sobre a força ilocutória das transcrições.

3. Fora ao hospital (...) Quebrara a perna».
3.1 Atenta nas formas verbais sublinhadas e integra-as no respectivo tempo, modo e aspecto.
3.2 Justifica o tempo e o aspecto utilizados.

4. Cria uma nova combinação de palavras na frase «Move lentamente a cabeça, examina-me de alto a baixo», substituindo os vocábulos sublinhados por outros equivalentes ao nível do sentido.


III

Elabora uma crónica, de 80 a 120 palavras, subordinada a um dos temas seguintes:
* A solidão (não) é uma escolha do ser humano.
* A solidariedade é o mais belo sentimento da humanidade.