27.12.10

Mónica



Mónica tinha acordado bem-disposta. Há muito tempo que isso não lhe acontecia. Às vezes, bastava um simples pormenor para ficar contente, a luz clara da manhã, o café a escaldar na chávena de flores vermelhas, a água límpida de Bora Bora na fotografia recortada da revista e colada na parede do quarto, o calor do duche, a voz do locutor a anunciar que são sete horas em Portugal Continental, seis na Madeira e cinco nos Açores. Arrepia-se quando ouve falar nas cinco horas, meu Deus!, o que seria se estivesse agora a levantar-se nos Açores para ir para o Salão Rosário, a escuridão que não deve fazer por lá.
Tem muita pena de não conhecer os Açores. Todas as manhãs sente vontade de lá ir, quando a rádio dá o sinal horário. Na Madeira já esteve algum tempo (...).
Mónica tem às vezes saudades da Madeira e apetece-lhe lá voltar, para ver tudo o que Alfredo Henrique viu e ela não. Mas sobretudo gostava de ir aos Açores, ver as furnas e as lagoas e os vulcões, que só conhece da televisão e do À Deriva, que ela compra todos os meses. São cinco horas nos Açores. Lá fora, ainda mal amanheceu. Isto porque é quase Verão. Se fosse Inverno, era noite cerrada. Agora com este acertar de horas pela Europa, acordamos de noite e deitamo-nos com o sol a entrar pela janela dentro, pensa.
- Mania da normalização... - diz Mónica, enquanto passa água-de-colónia pelo corpo. - Qualquer dia ainda vamos andar todos carimbados como os frangos e as maçãs.
Não lhe apetece pensar nessas coisas para não estragar a alegria com que acordou. Alegria que nem sabe donde vem. "Alfredo Henrique já deve estar à minha espera", pensa, olhando para o relógio, que põe, apressadamente, no pulso direito.
- Nunca vi ninguém usar o relógio nesse braço - exclamara D. Gilberta, alguns dias depois de ela ter chegado. - É para as pessoas repararem em ti, é?
Calara-se, envergonhada. Depois, com esforço, lá foi dizendo que usava o relógio no braço direito porque se habituara na escola, assim era mais fácil ir vendo o tempo que faltava para entregar os testes, era só olhar para a mão que escrevia.
- Esquisitices do continente - murmurara D. Gilberta.
A verdade é que nunca se habituara a usar o relógio no braço esquerdo, como toda a gente.
Como D. Gilberta.
Como Alfredo Henrique, que já deve ter olhado vezes sem conta para o seu relógio, no braço certo, sentado a uma mesa do café onde, todas, as manhãs, antes, de abrir o stand onde vende automóveis, espera por ela.

Alice Vieira, Caderno de Agosto, Ed. Caminho


Notas:
límpida: transparente.
Bora Bora: ilhas do Oceano Pacífico Sul.


1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. D. Gilberta é:

  1. a dona do salão Rosário
  2. a mãe de Mónica
  3. alguém das relações de Mónica

1.2. Mónica:

  1. está em Portugal e já viveu na Madeira
  2. não quer voltar à Madeira
  3. quer conhecer Bora Bora

2. Selecciona, no terceiro parágrafo, advérbios e/ou locuções adverbiais de:

tempo

lugar

3. O primeiro momento que regista discurso directo contém uma crítica. Esclarece em que consiste.

4, Atenta nas duas frases que dizem respeito ao discurso de D. Gilberta e no pará­grafo que está entre elas.

4.1. Este fragmento da narrativa diz respeito a um tempo anterior ao da restante narrativa. Esclarece esta afirmação.

4.2. Faz o levantamento das formas verbais que confirmam a resposta à questão anterior e classifica-as.

5. Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

É impossível dominar o pensamento!