9.11.10

Confidência do Itabirano


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!


Carlos Drummond de Andrade



I

1. O sujeito poético autocaracteriza-se.
1.1 Identifica os seus traços caracterizadores,
1.2 Como os justifica?

2. «Tive ouro, tive gado, tive fazendas» (v. 15)
2.1 Refere as figuras de estilo presentes na expressão e explica o seu valor expressivo,
3. Que sentimentos dominam o «eu» no tempo presente?
4. Estás de acordo com o título? Porquê?


II

1. Mostra que, no poema, o passado alterna com o presente.
1.1 Justifica essa alternância.

2. Explicita a razão pela qual a palavra Itabira se repete ao longo do texto, sendo também substituída pelo adjetivo gentílico «itabirana».
2.1 Identifica as formas verbais da 1.a pessoa que se repetem.
2.1.1 Justifica a repetição.