17.11.10

Carta de Mário de Sá-Carneiro


Paris, 15 Novembro 1912, às 8 horas da noite

Querido amigo:

Recebi ontem a tua segunda carta. Vejo que na verdade desta vez me enganei. Escreves! Não há dúvida que escreves! É isso para mim um grande prazer, pelo qual muito me regozijo.
As novidades que tenho a dar-te são poucas, as interessantes pelo menos.
As minhas aulas abriram na passada segunda-feira. O aspeto é mais ou menos o das daí. Tem havido um grande banzé por causa dos alunos do 2.° ano que fazem greve em virtude dumas questões com um professor. Hoje foi mesmo preciso entrar a polícia dentro da faculdade. A Desordem a que tanto estamos acostumados...
Falas da minha psicologia. Crê que é uma bem pobre psicologia e ultimamente, como nunca, a tenho sentido arrombada. Decididamente não há nada que a endireite. Outro dia fiz o seguinte quadro:
Estou em Paris
tenho dinheiro
tenho saúde
posso fazer o que quiser
não tenho que me preocupe
ando triste,
aborrecido,
desolado
em extremo
e é bem assim: Com todos os elementos para ser feliz eu não sou. [...] Há dentro de mim uma angústia desesperadora por não poder acertar a minha vida, emendar todos os disparates que tenho feito, voltar atrás. [...]
Para vivermos, meu velho, é preciso estarmos «enraizados», presos a sentimentos, a hábitos, a afetos. Eu não estou preso a coisa alguma. É este também um dos motivos da minha desolação. Bóio na vida, nunca me consegui fixar... Em suma cada vez me sinto mais o falido de que há anos te venho falando. E só te digo para terminar: aqui em Paris (aliás nada isolado, pois tenho todos os dias andado com gente conhecida que abunda por aqui) tenho passado alguns dos piores dias da minha vida.
Por hoje termino.
Suplico-te que escrevas breve!
Um grande abraço do teu pobre amigo

Mário de Sá-Carneiro,
(carta a Ricardo Teixeira Duarte)


I

1. Determine as partes que compõem a carta de Mário de Sá-Carneiro e identifique o assunto de cada uma.

2. Insira-a num tipo de modelo de carta e justifique a sua resposta.

3. Exponha o assunto da carta.

4. Identifique o estado de espírito de Sá-Carneiro nesta missiva.

5. Faça um quadro comparativo com a situação de vida do emissor e a situação que considera necessária para se poder viver.


II

Escreva uma carta a um amigo imaginário, a explicar o seu estado de espírito e a forma como encara o decorrer do ano escolar.