10.9.10

Á Virge Santíssima

Cheia de graça, Mãe de Misericórdia

N’UM sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade,
Era outra luz, era outra suavidade
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental




1. Mostra que muito mais do que retratar a Virgem Santíssima o poeta reconstrói uma visão.

2. Confronta os atributos apresentados com os atritos tradicionalmente indicados a Nossa Senhora.

3. O sonho e a realidade são duas realidades antinómicas que perpassam muitos dos sonetos de Antero. Aponta as causas dessa antinomia.

4. Mostra como o sentido dos 1.° e 2. ° versos está repetido, embora de outra forma, no último verso.

5. Salienta a importância do verbo ver e dos olhos.

6. Insere o texto na evolução poética e psicológica do poeta.