30.9.10

A menos inócua das palavras



Qual seria a sua reacção se alguém, numa discussão, o tratasse por «inócuo»?



Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-se, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia de vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
- Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
- Homem! - clamava o Silvestre, de mão pacífica no ar. Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
- E a dar-lhe! Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
- Faço o que posso - desabafou o outro.
- E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é!
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra «inócuo», estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
-Inoque será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de «inócuo». Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiram ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia.
- Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um inoque.
- Que é isso de inoque?
- Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
- Seu bêbedo ordinário. Seu inoque reles.
Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão. E desde aí, inoque significou, como é de ver, vadio e bêbedo.
Como, porém, as desgraças do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, «inócuo» foi inchando de mais significações.

Vergílio Ferreira, Contos, Bertrand (com supressões)



1. Refira o acontecimento que desencadeia a história.
2. Explique o sentido destas expressões:
- «ferido de espora»
- «não codilhassem por parvo»
- «sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas».
3. Encontre no texto sinónimos de:
- pega;
- palavra.
4. Atente, agora, no emprego do termo «inócuo».
4.1. De que forma o emprego de «inócuo» se traduz numa incoerência semântica várias vezes repetida?
4.2. Entendendo o texto como uma sequência de actos de fala, em que sentido se pode falar em incoerência pragmática?
4.3. Sugira uma explicação possível para o facto de «inócuo» ter inchado de novas significações.
4.4.O termo «inócuo» não chega, porém, a perturbar a comunicação entre as pessoas. Porquê?
4.5. É irónico o facto de ser justamente o termo -inócuo» a ganhar as significações que as personagens lhe dão. Justifique.
5. Elabore um conjunto de tópicos que possam servir de apoio ao reconto da história.
6. Explique o sentido do título atribuído ao texto.
7. Narre uma pequena história que tenha como motor da acção o emprego incoerente de uma palavra.