11.9.10

Artigo de apreciação crítica

Texto A

O trágico 11 de Setembro
segundo Oliver Stone ; Eurico de Barros, em Veneza

Parece ser quase certo que a Mossad (os serviços secretos israelitas) sabia do plano terrorista de ataque aos EUA no 11 de Setembro de 2001 e não terá passado a menor informação aos seus congéneres norte-americanos. Soube-se também recentemente que foi ordenado aos autores do livro oficial do relatório sobre o 11 de Setembro que omitissem qualquer referência a Israel. É um tema que daria um filme e pêras, e, tendo em conta a sua reputação e a sua filmografia, Oliver Stone seria o realizador indicado para o fazer. Pensem: o 11 de Setembro abordado na veia JFK.
Foi por isso que, quando se soube que is Stone ia fazer um filme sobre os ataques às Torres Gémeas, intitulado World Trade Center, muita gente, sobretudo na direita americana mais ligada aos neocons, começou de imediato aos saltos e a espingardar em todas as direcções. Oliver Stone, o radical militante de Salvador, o contestatário de Nascido a 4 de Julho, o teórico da conspiração ferrenha de JFK, o terrorista político que declarou ao The New York Times, poucos dias depois dos atentados, que estes tinham sido «um grito de protesto» e que tinha mostrado interesse em um dia filmar a tragédia «do ponto de vista dos terroristas», a mexer com o 11 de Setembro? E quem ia produzir o filme: a Al-Qaeda?
World Trade Center já. está em cartaz (...). Os seus detractores mais assanhados transfor-maram-se nos seus defensores mais destacados, os críticos renderam-se-lhe na maioria e, ao contrário do que diziam os que protestaram contra o filme pela única razão de que seria ainda «muito cedo» para se começar a tratar o 11 de Setembro no cinema, os espectadores americanos estão a acorrer às salas para o ver. A razão é que World Trade Center é um filme feito não para dividir, mas sim para unir, na sua recriação particular de um acontecimento colectivo, na individualização de uma micro-história dentro da História partilhada.
Antestreado fora dos EUA ontem, no Festival de Veneza (fora de competição), World Trade Center é a antítese de Nascido a 4 de Julho, e, se há um filme de Oliver Stone a que possa ser comparado, é a Os Bravos do Pelotão, onde o realizador quis contar a história dos combatentes do Vietname e mostrar a realidade da experiência de combate no Vietname, através de um grupo de solda¬dos que esteve no coração do conflito.
Em World Trade Center, Stone escolheu narrar a experiência do atentado através da história real de dois polícias do Porto de Nova Iorque, John McLoughlin (Nicolas Cage) e Will Jimeno (Michael Pena), membros do grupo de socorro que acorreu à Torre l após o embate do primeiro avião. Ambos ficaram soterrados sob os escombros do arranha-céus e foram o ante-penúltimo e penúltimo dos 20 sobreviventes a serem retirados vivos dos destroços. Sem sequer terem tido bem a noção das causas da catástrofe - quando Jimeno é puxado para a superfície, pergunta: «Onde estão as Torres?»
Em paralelo, Oliver Stone mostra a angústia das famílias dos dois agentes, que não têm a menor ideia do seu paradeiro, segue os esforços dos seus camaradas e dos bombeiros para os acharem e libertarem e nem sequer se esquece de Dave Karnes, o marine na reserva que vivia fora de Nova Iorque e assistia aos acontecimentos pela televisão, que sentiu um impulso «espiritual», vestiu a farda, rumou à cidade em caos, localizou McLoughlin e Jimeno e mais tarde cumpriu duas comissões no Iraque.
O filme não mostra o impacto dos aviões, e no início há apenas uma breve imagem de pessoas a cair de uma das torres em chamas, porque Stone preferiu omitir o que as televisões «gastaram», visual e emocionalmente. O Ground Zero ainda fumegante foi reconstituído num estúdio em Hollywood, mas só no final se sugere a devastação no local. O que importa em World Trade Center é recordar a resistência, o espírito de sobrevivência e de entreajuda dos dois enterrados vivos - a sensação de claustrofobia roça o insuportável -, o sofrimento de familiares e camaradas e finalmente o resgate no meio do choque e da morte.
Acusado pelos seus detractores de ser «convencional», «inspirador», «piedoso» ou «patrio-teiro», World Trade Center não é apenas um filme «sobre» o 11 de Setembro. É, muito mais do que Voo 93, do britânico Paul Greengrass (...), a primeira grande tentativa de catarse de uma catástrofe nacional com ondas de choque mundiais e projectadas no futuro, levada a cabo pelo cinema americano. Talvez um dia Oliver Stone faça o tal filme do ponto de vista dos terroristas ou sobre o papel da Mossad e de Israel nos atentados. Por agora, ficou em casa a recordá-la com os seus e a partilhá-la com todos os outros que a testemunharam de fora.

in Diário de Notícias, l de Setembro de 2006



Texto B

World Trade Center é recebido friamente no Festival de Veneza

O novo filme de Oliver Stone, World Trade Center, foi recebido de forma fria, quase sem aplausos, pela crítica no Festival de Cinema de Veneza na noite desta quinta-feira. O filme também foi exibido na sexta-feira, dia 1, fora do concurso do Festival.
De acordo com a agência Ansa, no final da primeira projecção (o filme dura 129 minutos) reservada à imprensa, apenas uma parte do público aplaudiu o trabalho de Stone. «No meu filme não existem heróis, mas apenas gente normal. Só o coração humano ajuda a sobreviver, enquanto a política afasta», explica o realizador em entrevista colectiva após a projecção do filme.
Para Stone, certamente «poder-se-ia fazer um filme político sobre a tragédia de 11 de Setembro», mas, se assim fosse, «seria uma outra coisa». «O meu (filme) deveria ser mais nobre», explica. Dessa forma, Stone justifica a sua escolha por um retrato mais humano da tragédia e, consequentemente, menos político, acrescentando que a sua produção deve ser considerada «um filme intenso sobre o poder que toca os corações».



I

1. O texto A é um artigo de apreciação crítica sobre o filme World Trade Center, do realizador americano Oliver Stone, retirado do Diário de Notícias do dia l de Setembro de 2006.
1.1.Delimita no texto os seguintes momentos: ;
a) parte narrativa (ajuda o leitor a criar uma primeira ideia sobre o texto)
b) parte informativa (fornece ao destinatário referências completas sobre o filme)
c) parte argumentativa (o autor do artigo avalia o filme)

2. Caracteriza Oliver Stone de acordo com a opinião de um militante de direita americana.

3. «Os espectadores americanos estão a acorrer às salas» para ver World Trade Center.
3.1 Transcreve do texto a expressão que justifica o êxito do filme.

4. Refere o local onde ocorreu a antestreia de WTC, na Europa.

5. Identifica as informações fornecidas sobre:
a) a acção principal
b) as acções paralelas
c) as personagens
d) o espaço
e) o tempo

6. Regista os argumentos que revelam a apreciação crítica do autor do artigo.

7. Atenta nas características do discurso.
7.1 Faz o levantamento de exemplos textuais que mostram a utilização de:
a) linguagem objectiva e subjectiva
b) frases/expressões valorativas e depreciativas

8. O texto B é também um artigo de apreciação crítica, publicado num suporte diferente.
8.1 Identifica-o.
8.2 Identifica como é apresentada a crítica do filme WTC neste artigo.

9. Relaciona as explicações do realizador sobre o seu filme com as conclusões finais do texto B.

10. Relê os textos A e B.
10.1 Indica qual te parece ser o artigo mais esclarecedor para o leitor, possível espectador do filme. Justifica a tua resposta de modo fundamentado.


II

1. Atenta no texto A.
1.1 Identifica o registo de língua predominante, exemplificando.
1.2 Estabelece a correspondência correcta entre a coluna A e a coluna B

Coluna A
a) «O filme não mostra o impacto dos aviões»
b) «e no início há apenas uma breve imagem de pessoas a cair das torres em chamas»l
c) «porque Stone preferiu omitir»
d) «que as televisões «gastaram», visual e emocionalmente»

Coluna B
1. oração coordenada copulativa
2. oração subordinada adverbial causa
3. oração subordinante
4. oração subordinada adjectiva relativa restritiva com antecedente


III

Elabora um artigo de apreciação crítica, de 80 a 120 palavras, sobre um filme que tenhas apreciado.