8.9.10

Aquele azul


O homem foi resvalando cada vez mais depressa, de mistura com pedras, terra, plantas secas - ressequidas - e muito pó, pelos quase degraus inventados pelo tempo, - pensou ele antes de cair lá em baixo num lugar qualquer mas amplo porque respirou com facilidade e as suas mãos magoadas, esvoaçando, não encontraram nenhum obstáculo por perto. Procurou então a lâmpada, embora sem grande esperança - era natural que a tivesse perdido na fuga ou na queda - mas afinal encontrou-a, que felicidade, era o único objecto precioso que herdara, e carregou na mola, ao de leve, receoso daquilo que podia ver, daquilo por quem podia ser visto. A luz, muito intensa, mostrou-lhe um grande espaço, como que uma enorme sala de paredes verticais, de tecto perigosamente arredondado, pareceu-lhe, e chão irregular. Sabia de grutas assim, por ouvir contar, e imobilizou a luz, procurando coisas como estalactites, mas não viu nada disso. O chão é que era, de certo modo, estranho. Porque no centro havia uma espécie de vala ou de leito seco de rio como tantos à superfície, secos para todo o sempre. Só que aquele era subterrâneo. Teve medo por qual¬quer razão, e aproximou-se da parede c lançou-lhe a luz, quase dura de tão intensa, da lâmpada. E então foi como se uma onda de êxtase o houvesse banhado, ou a sua alma imortal pairasse. Sentiu-se tão leve como se tivesse perdido o corpo, o tivesse despido, ali, naquele chão tão estranho onde havia uma boa mão-travessa de poeira. Pó, cinza e nada1, pensou - era uma frase que lhe haviam ensinado -, enquanto flutuava e era feliz. Deviam sentir-se assim os puros eremitas2 a quem os santos de Deus apareciam no deserto. Era como se levitasse, como se não soubesse (não sabia, claro) o que era gravidade. Como se... Nunca sentira uma coisa assim c teve a certeza de que nunca mais a sentiria, era impossível tal repetição numa vida humana, sempre tão curta e ameaçada.
A luz que ele agora brandia1 atentamente, com cuidado, como quem começa a trabalhar com afinco, pôs-se a tornar mais nítidas as manchas, mais definidos os contornos, que os havia às vezes, na grande pintura mural que o tempo (os séculos, os milénios) tinha tornado quase in-teligível4. Havia um azul... O homem buscou na memória um azul semelhante, mas não con-seguiu encontrar nenhum, porque o céu do seu mundo era acinzentado, as águas - raras - eram opacas, e nunca vira flores. Tudo tinha ficado assim desde a guerra, a última, a guerra enorme, quando os homens tinham morrido em tão grande número e as cidades haviam sido destruídas. No tempo do avô do seu avô, talvez. Ou mais longe.
Aquele azul: Era uma mancha informe, mas de uma beleza... A beleza do impossível, deu consigo a pensar. A beleza do que não pode existir, do que tem por força que ser mentira.
Mas aquilo não era mentira, e a mão do homem subiu e tocou-lhe ao de leve, como um crente tocaria a medo uma imagem miraculosa, e também como um poeta tocaria uma estrela. O homem, porém, não era crente nem poeta, ou talvez fosse ambas as coisas e o ignorasse. Aquele azul, porém... ss A mão tacteou ao de leve, ajudada pelo pincel de luz, e ele recuou, foi recuando, e quase no buraco por onde entrara, esquecido do perigo lá de fora, olhou sem bater as pálpebras. E surgiram outras cores, também diluídas, embora a mais intensa, a mais bela também, continuasse a ser aquele azul. E traços, muito leves alguns, mas sobretudo manchas. Uma delas, rosada, pareceu-lhe um rosto. Olhou-a largamente e era, de facto, um rosto. Ou não seria? Porque fechou os olhos e voltou a abri-los, e já não era rosto mas mancha como antes, onde estariam os olhos que há pouco julgara ver e se haviam dissipado, talvez para sempre?
O homem tomara de novo posse do seu corpo terreno. Caíra em si. Ouvira falar a alguém muito velho e sabedor, ao avô talvez, de grutas antiquíssimas pintadas por homens do princípio do mundo, do outro mundo de muito antes da catástrofe, e eis que ele entrara numa dessas grutas e descobrira maravilhas que todos julgavam perdidas, melhor, que todos julgavam inventadas, nas quais ninguém acreditava, até porque não valia a pena acreditar nelas. Que interesse tinha para os homens e para as mulheres esse passado de quando o mundo fora novo e saudável?
O homem sentou-se sobre os calcanhares, como quem se sente incapaz de suportar o peso de tantas maravilhas, levantou-se outra vez, foi-se habi¬tuando à luz, melhor, à ausência de luz. Apagara a lâmpada e, quase às escuras, já era capaz de dar alguns passos sem perigo de cair na vala que cortava a gruta em duas partes iguais - desiguais? - e se prolongava pelo negrume lá do fundo. Gostaria de saber se do outro lado também haveria pinturas murais, mas não se atrevia a passar para o outro lado, receava descer e faltar-lhe o chão, ou não ser, por qualquer razão, capaz de subir de novo, ou, o que era pior de tudo, perder-se e não conseguir voltar à entrada da gruta. Deixou-se pois ficar daquele lado, e de novo procurou ver, com toda a força do seu olhar, aquilo que alguém do princípio do mundo pintara. Despiu a túnica e, ao de leve, limpou a poeira mais superficial. Mesmo assim, grande parte dela já fazia parte da rocha e não saía. Por isso era difícil compreender as imagens, só afastando-se, olhando com força, podia ver qualquer coisa. Um rosto de perfil, aquela mão com um tubozinho branco entre os dedos, mais adiante a taça, e ao lado umas letras misteriosas: w, h, i, um espaço em branco, um y. Era estranho. Voltou atrás devagar, espan¬tou-se com aquelas letras, que alguém, já culto, escrevera. E viu um rosto meio apagado e um vestido afinal, azul. Aquele azul que há pouco fora uma simples, embora belíssima, mancha.
Aquele homem que nunca tivera nada, até porque no seu tempo já quase nada havia para pos-suir, sentiu-se, de súbito, rico. E resolveu que construiria uma barraca ali perto, para morar; depois iria buscar a mulher e os filhos onde os tinha deixado, do outro lado da colina. Mas primeiro construiria a barraca, tinha medo de perder aquela maravilha. E depois rodos os dias desceria os degraus talhados pelo tempo — ou por outros homens? -e isso seria...
Quando saiu, trepando até à superfície, afastou as plantas ressequidas que camuflavam a entrada da gruta, e pôs-se à procura de algo que pudesse servir-lhe de ponto de referência, já que o Sol estava a pôr-se e só no dia seguinte podia começar a trabalhar. Meteu os braços por entre as ramadas e encontrou algo duro. Era uma placa metálica em que estavam gravadas trezes letras cabalísticas5, cabalísticas porque o número treze, ele sabia, tinham-lhe contado... METROPOLITANO: Que queria dizer metropolitano?
Espetou a placa no solo e afastou-se devagar como um bicho, de novo atento aos ruídos e ao perigo que podia vir a atacá-lo, como há horas acontecera.

Maria Judite de Carvalho, "Aquele Azul» in Além do Quadro
Ed. O Jornal, 1983


Uma única personagem, um espaço misterioso, um tempo algures no futuro - são as coordenadas de um conto que deve ser desvendado lentamente, como lenta é a descoberta que o pro-tagonista faz. Vamos acompanhá-lo.

A queda na gruta (1.° parágrafo)
O que pensou o homem enquanto resvalava nos degraus?
Como soube, às escuras, que o lugar onde caiu era amplo?
Depois acendeu a lâmpada e viu. O que viu ele? E como interpretou aquilo que viu?
Perante uma realidade completamente desconhecida, qual foi a primeira sensação que experimentou?
De repente, a luz iluminou a parede. Que nova sensação o percorreu? Fundamenta a tua resposta em expressões do texto.

Aquele azul (2.°, 3.°, 4." parágrafos)
No 2º parágrafo, sabemos o que provocou aquela nova sensação no homem - a visão de uma mancha azul, resto de uma pintura mural cuja nitidez o tempo apagara. Por que razão essa mancha impressionou tanto o homem?
E por que razão pensou que aquele azul era "a beleza do impossível"?

Decifrar o enigma (5.°, 6.° parágrafos)
Depois do espanto, o homem "caíra em si" e tentou reflectir sobre a nova realidade que observava. Que conclusão tirou acerca da origem da pintura mural? Como justificas este raciocínio?
Observando melhor as manchas, percepcionou fragmentos de imagens. Quais? O que lhe permitiu concluir que o primeiro raciocínio estava errado?
E na tua opinião, petos indícios que o narrador nos fornece, o que poderia ter sido a pintura mural?


Possuir o azul (7.°, 8.° parágrafos)
Explica e comenta a decisão do homem.
Interpreta o implícito contido na expressão que remata o 7.° parágrafo - "e isso seria..."
"degraus inventados peto tempo" (l.° parágrafo)
"degraus talhados pelo tempo - ou por outros homens?" (7.° parágrafo)
• Explica a diferença, em termos da progressão narrativa.

Um bicho acossado (9.° parágrafo)
"(...) afastou-se devagar como um bicho, de novo atento aos ruídos e ao perigo que podia vir a atacá-lo, como há horas acontecera."
Mostra como, em vários momentos da narrativa, o homem reage e percepciona a realidade como um bicho. Explica esse fenómeno.
Mostra igualmente como o medo é uma constante no sentir da personagem.


Uma história contada por dentro
Eu Ao longo da narrativa, acompanhamos o protagonista: entramos com ele na gruta, vemos aquilo que ele vê, regressamos com eLe à superfície, e com ele descobrimos a placa metálica. Tudo isto, graças ao narrador.
• analisa a presença, o ponto de vista e a posição do narrador, apontando momentos da acção em que ele:
a) observa a realidade através do olhar da personagem;
b) conhece o que se passa no íntimo da personagem;
c) sugere a sua posição ou faz comentários.

Há momentos do texto em que não temos a certeza se estamos perante a voz do narrador ou o pensamento da personagem. Aponta dois exemplos.

Reescreve o texto desde "Procurou então a lâmpada" até "por quem podia ser visto", fazendo as transformações necessárias para que delas resulte um maior distanciamento do narrador relativamente àquilo que ele relata.

Nós, os leitores, sabemos mais do que a personagem. Explica esta afirmação.


"Tudo tiaha ficado assim desde a guerra"
É à medida que a narrativa progride que vamos percebendo a realidade e o tempo em que vive aquele homem. Caracteriza essa realidade, fundamentando a tua resposta em elementos do texto.

Tal como a Terra, também a esperança dos homens parece ter secado. Aponta a passagem do texto que o sugere.

A assustadora atmosfera futurista criada no conto fora provocada por uma guerra. Que tipo de guerra poderia/poderá ser essa? Que circunstância temporal a torna mais assustadora para nós, leitores?


De bicho a homem
Habitante de um mundo e de um tempo sem vida e sem beleza, em que "não valia a pena acreditar", o homem, até então reduzido à condição de animal, "sentiu-se, de súbito, rico" e pensou no futuro.
• Lembra as reacções do homem perante a visão do azul.
• Lê, com atenção, o excerto do Dicionário dos Símboíos a seguir transcrito, bem como a caixa informativa sobre o primeiro voo espacial.
• Propõe a tua interpretação para o valor simbólico do azul, neste conto de Maria Judite de Carvalho.


AZUL
O azul é a mais profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar obstáculo e perde-se no infinito. O azul é exacto, puro e frio. O azul é a mais fria de todas as cores, e, no seu valor absoluto, a mais pura. A cor azul suaviza, abre e desfaz as formas. Uma superfície pintada de azul já não é uma superfície, um muro azuí deixa de ser um muro. Os movimentos e os sons, bem ramo as formas, desaparecem no azul, confundem-se com ele, esvaem-se nele como uma ave no céu. É o caminho do infinito, onde o real se transforma em imaginário. Acaso não é o azul a cor da ave da felicidade, o pássaro azul, inacessível e no entanto tão próximo? Entrar no azul é um pouco como Atice no Pais das Maravilhas: passar para o outro lado do espelho. O azul é o caminho do sonho.

Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, in Dicionário dos Símbolos, Teorema (adaptado)