26.8.10

Inês de Leiria



Encontrou Fernão Mendes
no interior da China
(e em que apuros ele ia!)
a velha portuguesa
chamada Inês de Leiria,
que de repente reza:
«Padre Nosso que estais nos céus...»
Era, de português, o que sabia.

Ouvindo Fernão Mendes
esta voz que soava
(Fernão cativo e cheio de tristeza!),
o Português sorria...
..Padre Nosso que estais nos céus...»
A velha mais não sabia,
mas bastava.

Boa Inês de Leiria,
cara patrícia minha,
embora te fizesse
a aventura imortal
de Portugal
chinesa muito mais que portuguesa,
- pois por esse sorriso de Fernão
tocas-me o coração.

Deste-lhe em tal ensejo,
entre as misérias da viagem,
o mais gostoso e saboroso beijo
- o da Linguagem!

A. Lopes Vieira, Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa


Causas de vária natureza, a que não foi muitas vezes alheio o simples espírito de aventura, fizeram da emigração uma constante da vida portuguesa desde remotos tempos. Esta Inês de Leiria, por exemplo, vivia na China, em meados do século XVI, quando por lá se lhe deparou Fernão Mendes Pinto, que mais tarde, após o regresso a Portugal em 1558, haveria de escrever a famosa Peregrinação, obra de fundo autobiográfico onde relata as suas aventuras no Oriente, durante 21 anos, ao longo dos quais, como ele próprio recorda, foi treze vezes cativo e vinte e uma vendido como escravo.



1. Porque diz o autor que Fernão Mendes «ia em apuros» quando encontrou Inês de Leiria?

2. Porque chama o poeta patrícia à Inês?

3. Como interpreta o sorriso de Fernão Mendes ao ouvir a velha?

4. «Padre Nosso que estais no céu...» (v. 13). Hoje diz-se Pai Nosso. Que relação etimológica existe entre padre e pai?


9.8.10

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste


Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

Luís de Camões



1. Identifique o facto que inspirou o poema.

2. O sentimento de dor do eu poético é visível em todo o texto.
2.1. Relacione o emprego abundante dos advérbios de intensidade com o sofrimento do eu.
2.2. Indique, exemplificando, outros recursos que reenviem para a emoção que o sujeito poético experimenta.
2.3. Que ideia subjaz às questões levantadas na segunda quadra?

3. Interprete o estado de espírito do eu, no segundo terceto.