22.7.10

Raul Brandão, Memórias



1 de Fevereiro de 1908

Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana. Converso na livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e pálido o pintor Artur de Melo, que conheço do Porto, e diz num espanto, ainda transtornado: - Acabam de matar agora o rei1! - O quê?! - Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...
Fecham-se à pressa os taipais das lojas. Uma mulher do povo exclama: - Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram três. Dois lá estão estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça despedaçada!... Há palmas para o lado da Praça da Figueira. Anoitece. Um esquadrão desemboca da Rua da Mouraria... Mais tarde, no comboio, um empregado do Jorge O'Neill confirma: - Vi do escritório um polícia correr atrás dum dos assassinos. A certa altura caiu-lhe o chapéu: era calvo. O polícia varou-o com um tiro.
E pela narração do Melo, do Armando Navarro e de outros que assistiram, reconstituo assim a tragédia:
O comboio descarrilara. Seguia atrasado. Durante o trajecto, o rei não fumou nem jogou, como costumava. Vinha apreensivo.
O Malaquias de Lemos contou que na véspera, em Vila Viçosa2, o rei jogava com o príncipe3. Era ao entardecer. Na chaminé um grande braseiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a ler melhor levantou-se, chegando-se à janela. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois ras-gou-a em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na sombra... - El-rei não joga? - perguntou o príncipe. - Jogo, jogo... - Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quase não jantou nesse dia.
Nem uma nuvem. «Tarde sem par» - escreveu Ramalho.
- Linda tarde para uma bomba - exclama uma menina da alta, na ponte da estação.
Havia, é natural, um certo receio, e a duquesa de Palmeia, ao ouvido de João Franco1: -Não haverá perigo? - V. Ex.a vai ver que ovação! - Tinha-lha preparada para a récita da noite, em S. Carlos2. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcelos Porto, que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D. Carlos opôs-se. O carro descoberto partiu a chouto3, com toda a família real junta. Ao pé da estátua um grupo... Disseminados pela Arcada alguns polícias e, sentado num banco da praça um homem de varino4, que veio, sem precipitação, colocar-se à porta do Ministério do Reino.
Os empregados da Fazenda5 tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não conheciam uns aos outros. -«Eu assisti - diz o Navarro. -Fui para lá urna hora antes fumar o meu charuto. Três descargas cerradas partiram da Arcada do Ministério da Fazenda. Ficou tudo desorientado. Os polícias deitaram a fugir...» Um negociante da Rua de S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro passos - confirma o pintor Melo. - Um homem subiu às traseiras do carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de revólver. Vi um fumozinho branco sair-lhe do pescoço. O rei voltou--se, e, cem anos que eu viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto daquela máscara. Disse uma palavra que não percebi bem ...» - «Ao primeiro tiro - continua o Navarro - a cabeça do rei descaiu para a frente, ao segundo tombou para o lado.» O Buíça6, que tirara a carabina debaixo do gabão7, apontava e descarregava. O príncipe real ergueu-se - caiu varado. A rainha8, louca de dor, sacudia o Alfredo Costa9 com um ramo de flores. - «Então não acodem?! Não há quem me acuda?!» - Ninguém. Um cartucho falhara ao Buíça: sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu à cutilada.
Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguém procurara intervir - mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Sucederam-se então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A polícia disparava os revólveres a torto e a direito. O Correia de Oliveira esteve para ser morto: - Vinha de chapéu alto e foi o que me valeu!... Um polícia avançou direito a mim com o revólver apontado, exclamando como um doido: - Matei agora um! Matei agora um!


Raul Brandão, Memórias (tomo I),
Obras Completas, vol. l, Lisboa, Relógio d'Água, 1998




Notas:
1 João Franco (1855-1929): presidente do Ministério no reinado de D. Carlos, desde 1906; em 1907, com o apoio do Rei, faz um golpe de estado e inicia uma ditadura, facto que está na origem do regicídio.
2 S. Carlos: teatro de ópera lírica, em Lisboa.
3 a chouto: espécie de trote miúdo dos cavalos e mulas.
4 varino: espécie de capote.
5 Fazenda: Ministério das Finanças.
6 Manuel dos Reis da Silva Buíça: um dos regicidas, morto na ocasião do atentado (1876-1908).
7 gabão: espécie de capote.
8 a rainha: D. Maria Amélia (1865-1971), mulher de D. Carlos l, mãe de D. Luís Filipe e de D. Manuel.
9 Alfredo Costa: um dos regicidas, morto na ocasião do atentado.



I

1. Identifica o acontecimento central narrado no texto e justifica a data de 1 de Fevereiro de 1908, por que começa o texto.

2. Delimita no texto:
2.1. a introdução, o desenvolvimento e a conclusão;
2.2. os momentos em que se organiza o desenvolvimento.

3. O discurso do narrador é, por mais de uma vez, interrompido por falas, em discurso directo.
3.1. Faz o levantamento dessas falas e identifica quem as emite.
3.2. Explicita os efeitos produzidos pelo uso do discurso directo e pela diversidade de falas.

4. O acontecimento central é narrado por duas vozes e segundo duas perspectivas.
4.1. Localiza no texto as duas narrativas desse acontecimento.
4.2. Refere as vozes que o relatam e caracteriza a perspectiva de cada uma.

5. Memórias é o título da obra a que pertence o texto. Consideras que o excerto exemplifica as características de um texto de memórias? Justifica a resposta.


II

1. Atenta nas frases seguintes:
a. «Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana»
b. «Acabam de matar agora o rei!».
c. «O quê?!».
d. «Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...».
e. «El-rei não joga?».
f. «Jogo, jogo...».

Identifica os actos ilocutórios presentes nestas frases.


III

Redige um texto de cerca de duzentas palavras, em que, à semelhança de Raul Brandão, dês o teu testemunho sobre um acontecimento contemporâneo marcante, que acompanhaste directamente ou através dos media. Dá um título ao teu texto.