13.7.10

O Pássaro e a Pedra




Era uma montanha à beira-mar, alta, tão alta que parecia tocar o céu, áspera, abrupta, medonha, com ravinas negras, cheias de rochas escalvadas onde não nascia uma árvore, nem uma flor, c onde não chegavam homens nem animais.
Todos os dias, fizesse sol ou tempestade, com vento ou chuva, um pássaro, tão negro como as ravinas, voava constantemente da terra para o mar e do mar para as rochas, onde parecia impossível qualquer ave procurar abrigo ou fazer ninho.
Talvez por isso ele era o único pássaro que vivia nessas paragens solitárias, pairando lá no alto. Cão alto que mal se via do chão, como se quisesse alcançar o infinito.
E olhando lá de cima tudo quanto abarcava o seu voo e o seu olhar agudo e penetrante sete léguas em redor, o pássaro dizia para com as suas penas:
- Sou senhor de tudo isto, deste reino imenso de pedra e água.
Ninguém me pode fazer sombra, atacar-me ou roubar os meus domínios. Por isso sou forte, e poderoso e único.
- E grasnava, grasnava, com uma voz rouca que parecia a gargalhada de um ser diabólico.
Havia na mesma montanha à beira-mar uma pedra tão negra como o pássaro que, arrancada às rochas abruptas, viera a rolar aos trambolhões por ali abaixo, e ficara em equilíbrio entre dois pedregulhos, em risco de cair à menor enxurrada ou sopro de vento.
E pelos dois buracos disformes que lhe serviam de olhos, a pedra observava o pássaro que todos os dias voava cada vez mais alto, descrevendo curvas cada vez maiores para aumentar os seus domínios.
Sem se poder desviar nem um palmo do sítio onde o acaso a pusera, a pedra invejava aquela coisa voadora, a vida voadora, que podia ir onde quisesse, sem dar satisfações a ninguém.
- Maldito sejas, pássaro do mar e das tempestades - gritava a pedra pelo buraco disforme que lhe servia de boca. - Ave de mau agoiro, que voas em redor como se fosses dona de tudo isto, enquanto eu não sou ninguém, e às vezes até chego a pensar que não existo. - E chorava baixinho: - Ai, quem me dera ter asas que me levassem daqui para fora a correr mundos que devem existir para além desta montanha e deste mar!
Quando passava perto dela, o pássaro orgulhoso ouvia às vezes estes queixumes, e, grasnando com a tal voz rouca, dizia-lhe:
- Não voa quem quer, minha rica! É um dom da natureza. E mesmo assim, não é nada fácil. É preciso fazer esforço. Tu, alguma vez te esforçaste por alguma coisa?
-Eu? Como é que eu posso? - lamentava-se a pedra. - Sem patas nem asas, nem coisa parecida, nem alguém que me ajude?
- Nunca tentaste fazer nada pêlos teus próprios meios, sempre à espera que te empurrem, aos trambolhões da sorte. Ainda por cima és pequena, feia, disforme...
- É dos encontrões que tenho levado - gemeu a pedra.
- Enquanto eu, com as minhas asas abertas, lá no alto, sou forte, belo, superior, e invulnerável.
- Não és tão invulnerável como julgas - tornou-lhe a pedra. - Também estás sujeito à tua sorte, e não sabes qual possa ela ser quando menos esperas. Eu própria, apesar de pequena, posso matar-te com uma pedrada.
- Tu? Grande atrevida! - grasnou o pássaro. - Não sabes, minha parva, que para uma pedrada não basta a pedra? É preciso haver quem a atire. E por estes sítios, desde que eu me lembro, nunca passou ninguém.
- E ria, ria, fazendo muita troça da pedra.
- Ah, que se eu um dia te puder ser boa - rosnou a pedra entre dentes -, conta com a minha pedrada.
E eram sempre conversas deste género, cheias de ódio, inveja, orgulho, ironias e ameaças, quando afinal um pássaro do mar ou uma pedra da montanha não valem grande coisa, porque existem na terra e no mar mil outras coisas mais importantes, e o tempo tudo destrói.
E o tempo que tudo destrói foi passando, até que um dia apareceu por ali um homem vindo não se sabe de onde nem porquê.
Viu o pássaro, num sítio onde não havia mais nenhum e quis caçá-lo. Mas como não levava qual¬quer arma, apanhou uma pedra - a tal pedra - e, segurando-a com força, esperou que o pássaro lhe ficasse ao alcance quando descesse para pousar nas rochas. Fez a pontaria e, zás!, assobiando ao vento e descrevendo uma curva no ar como se voasse, a pedra foi bater em cheio no coração do pássaro.
Berrou o pássaro com a dor, e a pedra riu desta vez, satisfeita porque chegara a hora da vingança.
- Então - gritou a pedra -, qual de nós dois é agora o mais forte?
A história podia acabar aqui. Mas não, porque o pássaro, embora ferido, continuou o seu voo alto, enquanto a pedra caiu na vertical sobre as rochas mais além, onde rolou um bocado, e ficou outra vez parada, não sabemos para quanto tempo mais. E depois de o homem se ir embora, o pássaro descreveu uma larga curva, e com os olhos agudos viu onde tinha caído a pedra. E descendo sobre ela numa fúria, segurou-a nas garras e, afastando-se outra vez para o largo, deixou-a cair no abismo, onde ela mergulhou, descendo devagar, devagar, durante muito tempo, até ao fundo do mar, que era dos mais fundos.
E a pedra lá ficou, desta vez para sempre, e agora nem sequer vê a luz do Sol, nem ouve o assobio do vento, nem a tempestade, e muito menos pássaros ou homens.
A história também podia acabar aqui.
Não acaba. O pássaro, ferido de morte, ainda voou o mais alto que pôde, numa despedida, soltando gritos de dor - desta vez não ria - até esgotar as forças e cair também, longe, lá longe, devagarinho até ao fundo do mar, onde ficou para sempre, e onde não se vê o céu, nem as montanhas, nem as pedras, e onde muito menos pode voar.
Agora sim, acabou a história. É uma história triste. Se o pássaro e a pedra quisessem, não poderia ter sido tudo de outra maneira?


Ricardo Alberty, Fábulas que Ninguém me Contou



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LEITURA ORIENTADA
1. É realmente uma história triste a que acabaste de ler. Vais agora analisá-la, de acordo com os parâmetros propostos na "Ficha da Narrativa".
1.1. Elabora um questionário de análise, no qual contemples cada uma das categorias da narrativa (acção, personagens, espaço, tempo, narrador).
1.2. Depois de devidamente corrigido, usa o teu questionário, respondendo a cada uma das perguntas.
2. É uma história de "proveito e exemplo" a que acabaste de ler e analisar - uma fábula da qual poderemos retirar uma boa lição.
• Que lição dela retiras?


QUESTÕES DE LINGUAGEM
1. "Sem se poder desviar nem um palmo do sítio onde o acaso a pusera, a pedra invejava aquela coisa voadora, a vida voadora, que podia ir onde quisesse, sem dar satisfações a ninguém."
1.1. Sublinha todos os determinantes e pronomes utilizados no parágrafo transcrito.
1.2. Distingue e classifica determinantes e pronomes.
2. "Ódio, inveja, orgulho, ironias e ameaças"
2.1. Identifica a classe gramatical a que pertencem as palavras transcritas.
2.2. Indica um adjectivo da família de cada um dos signos referidos.
2.3. Constrói cinco frases em que incluas os adjectivos que indicaste; as frases deve-rão estar relacionadas com o texto.


OUTRAS ACTIVIDADES
1. MODIFICAÇÃO DE NARRATIVA
"Se o pássaro e a pedra quisessem, não poderia ter sido tudo de outra maneira?"
Claro que poderia. É o que vais demonstrar, modificando o conto, a partir do momento em que, em cena, aparece o homem "vindo não se sabe de onde nem porquê".


2. LEITURA / RECOLHA DE FÁBULAS
A história do pássaro e da pedra poderá, com certeza, ser considerada uma fábula. A fábula é um tipo de narrativa que não te é estranho, pois tu já leste e/ou já ouviste contar muitas dessas histó-rias em que os animais actuam como se de pessoas se tratasse.
2.1. Em livros de que disponhas em casa ou na Biblioteca de Escola, faz uma recolha das fábulas que mais te agradaram. Expõe as razões das tuas escolhas.


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