25.6.10

Manuel Bandeira



Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.

Sophia de Mello Breyner Andresen


I

1. Este poema pode dividir-se, globalmente, em três momentos.
1.1 Delimita-os, estabelecendo a correspondência com as frases que os resumem.
a) O «eu» poético recorda a juventude e os sentimentos provocados pela extraordinária criação poética de Manuel Bandeira, representada por três poemas.
b) O «eu» reconhece a influência benéfica e harmoniosa da poesia do poeta brasileiro na sua vida.
c) O sujeito poético presta sentida homenagem ao poeta Manuel Bandeira.

2. Da primeira estrofe, transcreve as expressões que afirmam:
a) Manuel Bandeira não é um poeta de nacionalidade portuguesa.
b) O «eu» poético guarda na memória a poesia exemplar de Manuel Bandeira.

3. Caracteriza o ambiente propício à declamação de poemas nesse «jovem tempo».

4. Identifica o sentimento que a avó experienciava ao ouvir a neta recitar poemas de Manuel Bandeira.

5. «No quarto já então pleno de futura / Saudade» (vs. 14-15)
5.1 Explicita a simbologia do espaço referido no verso 14.
5.2 Interpreta a intensa saudade antecipada temporalmente.

6. Na penúltima estrofe, o «eu» poético detém-se particularmente nesse tempo passado.
6.1 Refere as recordações que guarda na memória.
6.2 Esclarece o facto de «As três mulheres do sabonete Araxá» estarem «Tão visíveis / Que um eléctrico amarelo as decepava» (vs. 24-27).

7. Selecciona duas personificações da última estrofe, avaliando o seu valor expressivo.


II

1. Transcreve os adjectivos presentes nas 2.ª e 3.ª estrofes.
1.1. Escreve os antónimos correspondentes.

2. Classifica o vocábulo «Relembrando» (v. 5).
2.1 Explicita o valor aspectual que ele assume no poema.

3. Faz o levantamento das formas verbais, completando o quadro:

Modo Indicativo

1.a estrofe

Presente

está,

Pretérito Imperfeito

Pretérito Perfeito Simples

2.a estrofe


recitava,


3.a estrofe


era,


4.a estrofe



deixei,

5.a estrofe



caminharam,


3.1 Interpreta a relação estabelecida entre o tempo presente e o passado.

4. Estabelece a correspondência correcta entre as orações e a sua classificação sintáctica:
a) «Mas reconheço a sua voz» (v. 3)
b) «Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira» (v. 20)
c) «Que um eléctrico amarelo as decepava» (v. 27)
d) «E foram parte do tempo respirado» (v. 31)

1. oração subordinada adverbial consecutiva
2. oração coordenada copulativa
3. oração coordenada adversativa
4. oração subordinada adverbial temporal

4.1 Atenta nas palavras sublinhadas nas frases e selecciona a função sintáctica correcta:
a) predicado
b) complemento directo