9.6.10

Guiché

Há pessoas que são como aviões no ar:
precisam de muita gente a apoiá-los de terra.
Essa que se insinuou a meia-bicha devia ser uma delas:
com um sorriso meteu-se à frente de quatro e só dois resmungaram.
Pouco. Estão habituados ao atropelo.
A espertalheta virou-se para mim a pedir-me a caneta.
«Canetas não se emprestam, mas por ser para si...»,
disse eu. E dei comigo de caneta na mão
a oferecê-la àquela que me ultrapassara
e com a minha caneta afinal assinava.
Até os burocratas que destrabalhavam
ao guichê assomaram quando ela firmava.
Eram três (os gentis!) a ouvir as pulseiras
que ela tilintava com as suas maneiras
de nada subscrever logo assim às primeiras.
Quando, língua de fora, ela assina-assinou,
um veio com o mata-borrão e incontinenti lhe secou
a assinatura. Ela sorriu e entregou
o requerimento para sua excelência.
A bicha comoveu-se: teria ela urgência?
Assim se passa de em birrenta intrometida
a senhora por três ( e por mim) assistida,
que à beira-guichê é assim a vida...

Alexandre O'Neill, Entre a Cortina e a Vidraça


I

1. Explique os dois primeiros versos do texto tendo em consideração o seu sentido global. Caracterize, a partir de elementos do texto, a personagem central deste poema.

2. Mostre que o sujeito analisa as suas atitudes.

3. Analise o realismo com que é apresentada esta cena

4. Explicite o sentido de todas as palavras do texto que marcam uma linguagem própria deste poeta (recriações linguísticas, jogos de palavras, estrangeirismos, etc.).

5. A que se deve, na sua opinião, o sucesso de senhoras como a «espertalheta» aqui descrita?