4.6.10

Gestos sobre a paisagem



Há anos que percorre o país procurando ver na paisagem «de onde vimos e para onde vamos». É um registo de reflexão sobre o território e o povoamento português que faz em milhares de fotografias. Um levantamento que Duarte Belo, 38 anos, irá publicar numa edição de dez volumes. (...) Ao JL, o fotógrafo fala do seu trabalho e do último livro, Terras Templários de Idanha. (...)

Poucos meses no terreno renderam mil e uma fotografias, todas a preto e branco. E delas Duarte Belo fez Terras Templárias de Idanha, um livro como uma arquitectura - os seus livros têm esse carácter construído -, em que junta o ponto de vista das imagens a texto. (...)
Arquitecto de formação, Duarte Belo, nascido em Lisboa, em 1968 - filho do poeta Ruy Belo -, faz um sistemático levantamento fotográfico do território português, uma espécie de geografia de imagens, em que essencialmente procura captar um olhar renovado sobre a paisagem. Em Novembro, irá apresentar outro projecto, com os fotógrafos José Manuel Rodrigues, Aníbal Lemos e David Infante: uma leitura de Évora Contemporânea, à luz da classificação de património mundial.

Jornal de Letras: O que lhe interessou particularmente neste trabalho sobre Idanha-a-Nova?
Duarte Belo: Registar uma espécie de tempo longo, que está muito presente naquelas terras, que são um património natural, com uma paisagem relativamente bem preservada. Mas também com uma série de memórias muito presentes, de vários períodos históricos, desde o pré-romano ao medieval, e mesmo com lgumas marcas mais contemporâneas, de intervenções mais recentes.

Como surgiu este projecto?
Já tinha feito uma exposição em Idanha-a-Nova, no Centro Cultural Raiano, em 1998. Mais recentemente, fui convidado, assim como uma série de pessoas ligadas às artes e à escrita, a passar lá um fim-de-semana. A ideia nasceu desse conhecimento, apresentei a proposta que foi imediatamente aceite e depois integrada nas comemorações dos 800 anos da doação aos Templários da vila de Idanha. Fiz o projecto num período concentrado de tempo, dois ou três meses em que estive lá a fotografar.

Qual o critério que decide a escolha das fotografias que integra no livro?
Faço sempre um grande número de fotografias precisamente para poder fazer essa escolha. E tentei cobrir todas as situações que me só parecem significativas do trabalho que se desenvolveu no concelho de Idanha-a-Nova, que é o terceiro maior do país, e nessa medida tem uma paisagem muito extensa. Idanha-a-Nova, Idanha-a-Velha ou Monsanto são referências da paisagem portuguesa, particularmente da raia. Mas além dos lugares significativos e do seu povoamento, a escolha incidiu também sobre fotografias que revelassem aspectos sensíveis dessa realidade. E que se não fossem muito conhecidos, uma vez que são paisagens muito exploradas do ponto de vista fotográfico.

E existindo essa espécie de banalização visual, o que nessa paisagem lhe suscitou o desejo de fotografar?
A fotografia, no meu caso, resulta sempre de um contacto demorado com a paisagem. É a partir dessa cumplicidade que procuro um olhar renovado sobre coisas que já foram muito fotografadas.

Regista, nesse sentido, uma geografia de imagens do país?
Os geógrafos costumam gostar muito do meu trabalho e há uns anos fiz um livro sobre Orlando Ribeiro. Fiquei fascinado quando estive em sua casa, na altura em que fiz O Sabor da Terra, com José Mattoso e Suzanne Daveau que foi sua mulher. Porque encontrei na casa de Orlando Ribeiro, contido num só espaço pequeno, entre livros e objectos, todo o Portugal que eu tinha percorrido em grandes canseiras, durante uns anos. Por outro lado, sou licenciado em Arquitectura e sempre me interessei muito pelas questões do território e do povoamento. E procuro fazer um registo documental, constituindo um arquivo, que serve de base aos meus trabalhos. Há também uma espécie de olhar sensível, uma procura de um significado mais íntimo das presenças, do modo como o território foi ocupado ao longo do tempo e como o poderá ser no futuro.

A Arquitectura é uma ponte para esse entendimento?
Sim. O que acho fascinante na Arquitectura é a possibilidade de o ser humano construir o seu próprio território. É quase uma condição natural de sermos bichos: a arquitectura é uma procura permanente desse espaço de habitar humano. O meu registo fotográfico vai nesse sentido de procurar perceber de onde vimos e para onde vamos. O que mais me seduz é esse processo de tentar compreender os gestos humanos sobre a paisagem.

Em Terras Templárias de Idanha também utiliza textos. Interessa-lhe essa interacção entre a imagem e a palavra?
Gosto muito. No caso de Idanha, através dos vários autores, também procurei que houvesse uma complementaridade com as fotografias. É quase como procurar o sentido do próprio livro. Porque há uma construção de um discurso, que é a sequência das páginas, e parece-me que outros elementos podem criar relações mais ricas, complexas e abertas a sig-nificados diferentes, conforme a pessoa que os lê e interpreta.

Um dos textos de Terras Templárias de Idanha é seu. Também escreve?
Noutros livros, como O Vento Sobre a Terra ou Uma Espada Trespassa o Coração, ambos editados pela Assírio & Alvim, também há textos meus. Gosto de escrever textos curtos, que ajudem a definir um sentido. Prefiro que exista uma narrativa, que não sejam só livros de fotografia.

E faz mais livros do que exposições...
Tenho tido a sorte de conseguir publicar bastante e, de facto, tenho apostado mais na edição do que nas exposições. Porque gosto particularmente de livros, talvez até por questões familiares. Embora sejam linguagens diferentes, acho que as pessoas estabelecem uma relação mais forte de proximidade com os livros do que com as exposições.

Maria Leonor Nunes, in Jornal de Letras, 16 a 29 de Agosto de 2006


I

1. Lê a entrevista e apresenta a sua estrutura.

2. O entrevistado é Duarte Belo.
2.1 Esclarece em que consiste o seu trabalho.
2.2 Refere de que modo a sua formação influencia a actividade a que se dedica.

3. O fotógrafo responde às questões que lhe são colocadas.
3.1 Identifica o entrevistador.
3.2 Refere o nome do jornal que publica a entrevista.

4. Idanha-a-Nova, Idanha-a-Velha e Monsanto são lugares muito fotografados do nosso país.
4.1 Indica o que levou Duarte Belo a interessar-se por Idanha-a-Nova.
4.2 Explica de que modo é possível fotografar o banal de forma original.

5. O olhar de Duarte Belo sobre o território considera o passado e projecta o futuro.
5.1 Neste sentido, explica a afirmação: «O meu registo fotográfico vai nesse sentido de procurar perceber de onde vimos e para onde vamos.»

6. Explicita o motivo pelo qual o entrevistado cria interacção entre a fotografia e os textos, na obra Terras Templários de Idanha.

7. O artista afirma: «gosto particularmente de livros, talvez até por questões familiares».
7.1 Apresenta uma interpretação destas palavras.

8. Interpreta o sentido do título da entrevista.

9. As questões colocadas pela entrevistadora são predominantemente:
a) abertas
b) fechadas
c) directas
d) indirectas


II

1. Identifica o registo de língua utilizado pelos interlocutores (formal ou informal). Justifica.

2. Refere a forma de tratamento utilizada pela entrevistadora.

3. Neste texto, a interacção discursiva entre os falantes desenvolve-se do modo requerido.
3.1 Identifica o princípio universal regulador que lhe está subjacente.

4. Classifica os actos ilocutórios presentes nas frases.
a) Qual o critério que decide a escolha das fotografias que integra no livro?
b) Faço sempre um grande número de fotografias precisamente para poder fazer essa escolha.