27.6.10

A Fuga de Wang-Fô


Chegaram à entrada do palácio imperial. As paredes violetas insinuavam em pleno dia um tom crepuscular. Os soldados obrigaram Wang-Fô a atravessar salas redondas ou quadradas cujas formas simbolizavam as estações, os pontos cardeais, a Lua e o Sol, a longevidade e a Omnipotência. As portas giravam sobre si próprias emitindo notas musicais e o seu encadeamento era de forma a permitir que quem atravessasse o palácio do nascer ao pôr-do-sol ouvisse a escala toda. Por fim, o silêncio tornou-se tão grande que mal se ousava respirar; um escravo soergueu um reposteiro, e o pequeno grupo entrou na sala onde reinava o Filho do Céu.
Era um imenso aposento sustentado apenas por grossíssimas colunas de pedras azuis. Desabrochava a toda a volta um jardim, cada flor dos seus bosques pertencia a uma espécie rara vinda do outro lado dos oceanos. No exalavam, porém, qualquer perfume, receando, se o fizessem, perturbar os pensamentos do Dragão Celeste. (...)
O Mestre Celeste estava sentado num trono de jade, e, cobertas de rugas, as mãos dele assemelhavam-se às dum ancião, se bem que ele ainda mal tivesse vinte anos. Como os seus cortesãos, de pé junto às colunas, estendiam o ouvido para não perder a mais pequena sílaba saída dos seus lábios, ele tinha-se habitua- do a falar sempre em voz baixa.
— Dragão Celeste, disse Wang-Fô prosternado, sou velho, sou pobre, sou fraco. Tu és como o Verão; eu sou como o Inverno. Tu tens Dez Mil Vidas; eu tenho apenas uma, e que vai acabar. Que mal é que eu te fiz? Ataram as minhas mãos, que nunca te causaram nenhum dano.
— Perguntas-me o que é que me fizeste, velho Wang-Fô?, disse o Imperador.
A voz dele era tão doce que dava vontade de chorar. Ergueu a mão direita, que os reflexos do pavimento de jade faziam parecer verde como uma planta submarina, e Wang-Fô, maravilhado com o tamanho daqueles dedos delicados, esquadrinhou a memória para ver se não teria desenhado do Imperador, ou dos seus antepassados, retrato medíocre que o fizesse merecer a morte. (...)
— Perguntas-me o que é que me fizeste, velho Wang-Fô?, recomeçou o Imperador, inclinando o pescoço encarquilhado para o velho que o ouvia. Vou dizer-to. O meu pai reuniu uma colecção de pinturas tuas no fundo do palácio, e foi nessas imensas salas que eu fui criado, velho Wang-Fô, porque não me deixavam sair, com medo de que ver os infelizes me afligisse o espírito ou agitasse o coração. (… De noite, quando não conseguia dormir, ficava a olhar para os teus quadros, e, durante dez anos, no houve uma só noite em que eu os não tenha contemplado. De dia, sentado num tapete de que já sabia de cor todos os desenhos, descansando as mãos nos meus joelhos de seda amarela, eu imaginava o mundo — com o país de Han no meio — semelhante à planície concava e monótona da mão profundamente atravessada pelos Cinco Rios. A toda a sua volta, o mar onde os monstros nascem, e, mais longe ainda, as montanhas onde assenta o céu. Tudo isto eu imaginava com a ajuda dos teus quadros. Aos dezasseis anos, reabriram-se as portas que me separavam do mundo; subi ao terraço do palácio para ver as nuvens, mas elas não se comparavam com as dos teus crepús-culos. Mandei vir uma liteira, sacudido através de estradas atulhadas de lama e pedras com que eu não contava, percorri as províncias do Império sem encontrar os teus jardins repletos de mulheres parecidas com flores e as tuas florestas cheias de antílopes e de pássaros. Os calhaus da beira-mar fizeram com que eu me enjoasse dos oceanos; a fealdade das aldeias impede-me de ver a beleza dos arrozais, e o riso áspero dos meus soldados dá-me vómitos. Mentiste-me, Wang-Fô, velho aldrabão: o reino de Han não é o mais maravilhoso dos reinos e não sou eu o Imperador. O único império onde vale a pena reinar é aquele onde tu entras, velho Wang, pelo caminho das Mil Curvas e das Dez Mil Cores. Só tu reinas em paz sobre as planícies onde a neve não derrete e sobre campos de flores que nunca morrerão. E é por isso, Wang-Fô, que eu encontrei o suplício que te estava reservado, a ti cujas pinturas me fizeram detestar o que possuo, e desejar o que jamais possuirei. E, para te fechar na única prisão de onde não poderás sair, decidi queimar-te os olhos, já que os teus olhos são as duas portas mágicas por onde tu penetras no teu reino. E, já que as tuas mãos são as duas estradas de dez ramificações que vão até ao coração do teu império, também decidi cortar-te as mãos. Percebes tu agora, velho Wang-Fô?
Ouvindo esta sentença, o discípulo Ling arrancou da cintura uma faca amolgada e precipitou-se sobre o Imperador. Dois guardas sustiveram-no. O Filho do Céu sorriu e acrescentou com um suspiro:
— Também te odeio, velho Wang-Fô, por te saberes fazer amar. Matem esse maltrapilho.
Ling deu um salto para a frente, a fim de evitar que o sangue sujasse a roupa do seu mestre. Um carrasco decapitou-o com um sabre. Os criados levaram os restos mortais, e Wang-Fô, desesperado, admirou a lindíssima mancha escarlate que o sangue do discípulo deixara no pavimento de pedra verde.
O Imperador fez um sinal, e dois escravos enxugaram os olhos de Wang-Fô.
— Ouve, velho Wang-Fô, disse o Imperador, e pára de chorar, porque não é este o momento mais apropriado. Há na minha colecção das tuas obras um quadro admirável onde as montanhas, o estuário dum rio e o mar se reflectem, é claro que infinitamente reduzidos, mas com uma intensidade que ultrapassa a dos próprios objectos, como as figuras reflecti-das na superfície duma esfera. Mas não terminaste esse quadro, Wang-Fô, e eu quero que consagres as horas de luz que te restam a acabar a tua obra-prima. … Se te recusares, mando queimar todas as tuas obras antes do teu suplício…

A Fuga de Wang-Fô, Marguerite Yourcenar


I

1 – Explica o que a arquitectura do palácio revela acerca do Imperador e do modo como governa.

2 – Faz a descrição do Imperador de acordo com:
- as expressões usadas para o nomear,
- o seu aspecto físico,
- os seus hábitos.

3 – Refere as razões invocadas pelo Imperador para prender e castigar Wang-Fô.

4 – Como se refere o Imperador às mãos e aos olhos do pintor?

5 – Como reagiu Ling à decisão do Imperador?

5.1 – Diz o que revela esta atitude de Ling relativamente aos seus sentimentos por Wang-Fô.

6 – Qual foi a última exigência imposta pelo Imperador a Wang-Fô?

7 – O que aconteceria no caso de Wang-Fô não obedecer ao Imperador?


II

1 – Pontua devidamente o excerto que se segue.

Era mesmo Ling trazia a roupa de todos os dias e na manga direita viam-se ainda as marcas de um rasgão que ele não tivera tempo de coser essa manhã antes da chegada dos soldados mas á volta do pescoço trazia um estranho lenço encarnado sem deixar de pintar Wang-Fô disse-lhe docemente julgava-te morto

2 – Coloca no discurso indirecto.
- Que mal é que eu te fiz? – perguntou Wang-Fô.
- Enganaste-me com as tuas pinturas e por isso te odeio - respondeu o Imperador.

3- Conjuga os verbos entre parênteses no presente ou no pretérito imperfeito do conjuntivo.
3.1 . Se eu (ser) pintor, gostaria de conhecer Wang-Fô.
3.2. Embora o Imperador não (acreditar) em Wang-Fô, lamentava ter de o matar.
3.3. Ling prepara bem as tintas para que tudo (correr) bem.
3.4. Vou confirmar a viagem antes que me (mudar) os planos.

4- Indica das frases anteriores aquelas em que o conjuntivo exprime
a. anterioridade
b. concessão
c. finalidade
d. condição


III

Imagina que tinhas a oportunidade de interceder a favor de Wang-Fô junto do Imperador. Redige o discurso que farias de modo a convencer o Imperador a não matar o pintor.