12.6.10

Diário



Abril, 22
Na quarta-feira, à entrada da aula, veio ter comigo o contínuo de serviço e queixou-se-me do Fosco. O Fosco fizera barulho, pulara, cantara, dançara ou lá o que foi antes de chegar... Assumi um ar de seriedade digno de um grande actor, e disse ao homenzinho - «Já trato do assunto», e ao Fosco, para que o homem ouvisse, «Vamos ajustar contas». Depois fechei a porta; esperei, escutando, que se afastasse o empregado; e quando os seus passos se não ouviam já, anunciei que no próximo dia seria julgado o Fosco. Ele que escolhesse o seu advogado de defesa, um deles que propusesse advogado da acusação.
Fixe bem todo o professor tem de cumprir o que promete ao aluno. Caso contrário, «há concluído», como, em tradução, diria o Radice. É que eles não esquecem - ou só esquecem o que os não interessa. E nós temos de ser exemplo de tudo - a começar, temos de dar o exemplo de bem cumprir. Mal entrei, vi logo na secretária o Poeta e o Gabriel; o Fosco estava entretido a despejar o cesto dos papéis, para uma improvisação feliz de banco de réu. E o debate começou, seguido com interesse e relativa seriedade da parte do público. O ataque não foi brilhante. Mas o Poeta -com que brilho, com que imaginação, com que correcção de vocabulário e riqueza de argumentos is não defendeu o seu constituinte!
Eu ia sempre «puxando» por cada um (o réu também falou, porque tinha «alguma coisa a alegar em sua defesa») e assim aquela aula, levada a brincar, teve o mérito de pôr os moços a falar sem o constrangimento com que recontam um trecho acabado de ler.
Prestou-se a coisa, também, a aquisição de vocabulário: juiz, juízo, julgar e outras palavras relacionadas com a audiência foram tratadas antes dela.
E surgiu então uma ideia, aplaudida por todos, e que vem ao encontro da Semana do Animal: passaremos a fazer, de vez em quando, julgamentos de animais e fábulas. O Lobo, de «O Lobo e o Cordeiro», a Cigarra, a Formiga, a Raposa, de «O Corvo e a Raposa», virão ao tribunal.

Sebastião da Gama, Diário


I

1. O emissor relembra um episódio da sua vida.
1.1 Situa-o no tempo e no espaço.
1.2 Regista as acções geradoras da situação conflituosa.
1.3 Refere a solução que o professor deu ao problema.

2. Na frase «Fixe bem todo o professor tem de cumprir o que promete ao aluno.», o comportamento de um professor é objecto de reflexão.
2.1 Transcreve exemplos textuais ilustrativos da relação professor-aluno.

3. A aula do «julgamento» do Fosco foi, segundo o narrador, um êxito. Explicita porquê.

4. A ideia da comparência de animais de fábulas naquele tribunal gerou uma reacção nos rapazes.
4.1 Transcreve a expressão que revela o sentimento de agrado por parte dos alunos.
4.2 Esclarece o interesse de tal actividade no espaço-aula de Português.

5. O narrador evoca um dia da sua vida de professor.
5.1 Classifica o narrador quanto à presença.
5.2 Identifica as marcas autobiográficas presentes no texto.

II

1. Tomando como referente «o contínuo», transcreve do texto os seus co-referentes anafóricos.
2. «Fixe bem todo o professor tem de cumprir o que promete ao aluno.» (L 8)
2.1 Classifica o acto ilocutório presente na frase transcrita e esclarece a sua intencionalidade comunicativa.
3. Considera o vocábulo «justiça».
3.1 Retira do texto palavras do seu campo semântico.
3.2 Selecciona vocábulos que se integram na família de «justiça».

III

O excerto sugere reflexões sobre temáticas diversas.
Elabora um texto expositivo, de 100 a 150 palavras, desenvolvendo uma das opções apresentadas:
* A justiça - valor universal e intemporal
* A vida como aprendizagem
* O papel do professor no século XXI
* A aprendizagem escolar
* Trabalho de equipa
* Professor(es) meu(s) amigo(s)

Aplica as regras da textualidade.