20.6.10

Conto da Ilha Desconhecida



O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a ideia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero. Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um ao pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mini, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela.

José Saramago, Conto da Ilha Desconhecida



I

1. Atenta nas frases seguintes:
a) A mulher informa o homem do estado da embarcação.
b) Os dois comem o farnel no castelo da popa do barco.
c) O homem enuncia as condições necessárias para navegar em busca de uma ilha desco-nhecida.
d) O homem e a mulher da limpeza dialogam filosoficamente sobre o sentido metafórico do vocá¬bulo «ilha».
e) O homem revela um estado de espírito dominado pelo desânimo.
f) A mulher faz uma proposta que desconcerta o homem.
g) O homem e a mulher identificam os mestres da arte de navegar.
1.1 Ordena-as, de acordo com a sequencialização lógica das ideias do texto transcrito.

2. Transcreve as expressões que permitem situar a acção no tempo e no espaço.

3. Refere três traços caracterizadores do homem e da mulher da limpeza.

4. Identifica a figura de estilo presente na expressão «todo o homem é uma ilha».
4.1 Explicita o significado da resposta do homem: «Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós.»

5. Interpreta a afirmação da mulher «Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões»

6. Classifica o narrador, quanto à presença, à ciência e à posição.


II

1. Identifica os co-referentes de barco desde «Em menos de um quarto de hora» até «terei de ir dizer ao rei que já não a quero»
1.1 Classifica-os.

2. Considera as expressões:
a) «Como foi que aprendeste estas coisas»;
b) «É bonita».
2.1 Classifica os actos ilocutórios nelas presentes, esclarecendo a sua intencionalidade comunicativa.

3. «Primeiro tens de ver o teu barco, só o conheces por fora».
3.1 Integra os vocábulos destacados na classe e subclasse a que pertencem,

4. Reescreve no discurso indirecto o texto desde «Primeiro tens de ver o teu barco» até «que aprendeste essas coisas».

5. «Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois».
5.1 Divide e classifica sintacticamente as orações.
5.2 Refere as funções sintácticas de:
a) «marinheiros»
b) «que»
c) «cá»


III

Escreve um texto narrativo, de 150 a 200 palavras, com o título: O importante é partir, não é chegar...