2.6.10

Cão como nós




Cão como nós, diziam muitas vezes os rapazes que, entretanto, foram crescendo, enquanto o cão ia envelhecendo e afirmando cada vez mais a sua diferença e singularidade.
- Cão como tu, dizia a minha filha, sempre que eu desabafava e protestava contra aquela irresistível tendência do cão para não obedecer.
Cão como tu, dizia ela. Mas a verdade é que o cão, quando ela era bebé, a protegia contra tudo e contra todos, mesmo contra a minha mãe. Foi uma noite, num velho hotel das Caldas. Ela estava a dormir num quarto ao lado de minha mãe. O cão tinha ficado a guardá-la. Pelo menos auto-atribuía-se essa missão. A meio da noite a pequena deve ter chorado. Quando a avó a foi espreitar, o cão transformou-se em leão. Foi o cabo dos trabalhos.
É certo que ele tinha umas contas a ajustar com a senhora. A minha mãe dizia que cães dentro de casa nem pensar. E num Natal, em Águeda, pespegou com ele no antigo canil onde outrora o meu pai tinha os cães de caça. Em vão protestaram os rapazes. Em vão avisei que o cão ia ladrar dia e noite. Em vão minha mulher explicou que o cão estava habituado a ficar dentro de casa e nunca se resignaria ao canil. Minha mãe manteve-se inamovível. Meu pai, talvez para pôr água na fervura, disse aos rapazes que se queriam fazer dele um cão de caça tinham de habituá-lo ao canil.
- Mas ele não precisa de canil para caçar. Ele é o nosso cão e está acostumado a viver connosco.
Cão como nós, pensei eu, mas não disse nada, dividido entre a satisfação de ver finalmente o cão ser tratado como cão e a esperança de que a lendária teimosia de minha mãe acabasse dessa vez por ser vencida por aquele cão que não queria ser cão.
Três dias e três noites ele ladrou sem parar.
Três dias e três noites ninguém conseguiu pregar olho.
- Estupor do cão não pára de ladrar, disse minha mãe, muito tensa.
- Isto não é um ladrar, corrigiu o filho mais velho, ele está a falar.
Mas isso já eu sabia há muito tempo, o cão tinha acabado por conseguir ladrar quase como quem fala e o sonho dele era o de ser o primeiro cão a pronunciar uma palavra. E até certo ponto, à maneira dele, disse a palavra não. Porque à quarta noite em que se levantou para conseguir o impossível, que era calá-lo, meu pai acabou por se virar contra a minha mãe, com aquela sua conhecida frase dos momentos de cólera:
- Eu quero que se trabalhe isto tudo, ou o cão vem para casa ou vou eu dormir para a pensão.
Ao fim e ao cabo, foi uma confrontação intensa entre dois temperamentos parecidos, o da minha mãe e o do cão. A senhora acabou por ceder e o cão veio dormir para dentro de casa, o que nunca, até então, com qualquer outro tinha acontecido. Foi uma vitória significativa daquele cão chamado Kurika.

Manuel Alegre, Cão como Nós


I

1. Apresenta brevemente e por palavras tuas o assunto do texto.

2. Indica as personagens que participam na acção, explicando as ligações entre elas.

3. A narrativa organiza-se em torno de um episódio central.
3.1. De que episódio se trata? Indica as linhas do texto onde começa e onde acaba o relato desse episódio.
3.2. Descreve a atitude do narrador no decurso do referido episódio. Ilustra a resposta com citações significativas.

4. Relê o texto, desde o início até «E num Natal, em Águeda».
As situações relatadas nesta parte inicial do texto passaram-se antes ou depois do episódio central? Transcreve os elementos textuais em que fundamentas a resposta.

5. «Cão como Nós» é o título do livro e esta expressão surge repetida, ou na variante «Cão como tu», ao longo deste pequeno excerto. Explica o valor expressivo de tal repetição.

6. Este texto tem carácter autobiográfico? Justifica a resposta, com base em cinco citações.


II

7. Identifica as marcas de registo informal presentes nas frases a seguir transcritas.
Frase A: «Quando a avó a foi espreitar, o cão transformou-se em leão. Foi o cabo dos trabalhos»
Frase B: «É certo que ele tinha umas contas a ajustar com a senhora. A minha mãe dizia que cães dentro de casa nem pensar. E num Natal, em Águeda, pespegou com ele no antigo canil»
Frase C: «Meu pai, talvez para pôr água na fervura»
Frase D: «Estupor do cão não pára de ladrar»

8. Propõe uma redacção, em registo formal, de duas destas mesmas frases.

9. Explicita o efeito produzido no texto pelo uso do registo informal.

10. Relê o quarto parágrafo.
10.1. Faz o levantamento das frases em discurso indirecto, a partir de «Em vão avisei»
10.2. Reescreve duas dessas frases no discurso directo


III

Conta um episódio divertido ou uma experiência marcante vividos por ti.