23.5.10

Viola chinesa


Ao longo da viola amorosa
Vai adormecendo a parlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?

Ao longo da viola, morosa...

Camilo Pessanha


A Clepsidra, com toda a evidência, programa em alguns dos seus textos a releitura. Neste poema, concretamente, a última estrofe aparece reduzida a um verso, que é de facto o primeiro verso da primeira estrofe, bastando, portanto, voltar ao princípio a esse sinal, e aí ler a última e primeira estrofes coincidentes do poema sem¬pre recomeçado. Mas uma tal circularidade de leitura pode ser menos evidente.
Cabral Martins,in Colóquio/Letras, n.° 60,Março de 1981


1. Concorda com a opinião acima expressa?

2. O que lhe sugere a abundância de sons nasais em «Viola chinesa»?

3. Que versos, em cada um dos poemas, nos reenviam para uma certa apreensão do sofrimento sem motivo?

4. De que forma os poemas ilustram o gosto simbolista?