13.5.10

Memórias


Vou contar o que aconteceu na Vega Central, o mercado maior e mais popular de Santiago do Chile.
Alguém veio um dia buscar-me de automóvel, fazendo-me entrar no veículo sem saber exactamente para onde e ao que ia. Levava no bolso um exemplar do livro Espana en el corazón. Dentro do carro explicaram-me que estava convidado para fazer uma conferência no Sindicato dos Carregadores da Vega.
Quando entrei naquela sala desordenada, senti o frio do Nocturno de José Asunción Silva, não só pelo adiantado Inverno como pelo ambiente, que me deixava atónito, Sentados em caixotes ou em improvisa¬dos bancos de madeira, uns cinquenta homens aguardavam-me. Alguns tinham à cinta um saco amarrado em jeito de avental, outros cobriam-se com velhas camisolas remendadas e outros desafiavam o frio mês de Julho chileno com o torso nu. Eu sentei-me por detrás da mesinha que me separava daquele estranho público. Todos me fitavam com os olhos carbónicos e estáticos do povo do meu país.
Lembro-me do velho Laferte. Àqueles espectadores imperturbáveis, que não movem um músculo da cara e olham fixamente, Laferte designava-os com um nome que me fazia rir. Disse-me uma vez na pampa salitreira: «Repara, lá no fundo da sala, apoiados à coluna, estão a olhar para nós dois muçulmanos. Só lhes falta o albornoz para se assemelharem aos impávidos crentes do deserto».
Que fazer com este auditório? De que poderia falar-lhe? Que coisas da minha vida seriam capazes de lhes interessar? Sem atinar numa decisão e escondendo o desejo de sair a correr, agarrei no livro que levava comigo e disse-lhes:
- Estive em Espanha há pouco tempo. Havia lá muita luta e muitos tiros. Ouçam o que escrevi sobre aquilo.
Devo notar que o livro Espana en el corazón nunca me pareceu de fácil compreensão. Revela um esforço de clareza, mas está embebido do torvelinho daquelas grandes, múltiplas dores.
O facto é que pensei ler umas tantas estrofes, juntar umas quantas palavras, e despedir-me. Mas as coisas não aconteceram assim. Ao ler poema após poema, ao sentir o silêncio, como de água profunda, em que as minhas palavras caíam, ao ver como aqueles olhos e sobrancelhas escuras seguiam intensamente a minha poesia, compreendi que o livro chegava aos destinatários. Continuei a ler mais e mais, comovido eu próprio pelo som da minha poesia, agitado pela magnética relação entre os meus versos e aquelas almas abandonadas.
A leitura durou mais de uma hora. Quando me preparava para sair, um daqueles indivíduos levantou-se. Era dos que tinham o saco atado em torno da cintura.
Quero agradecer-lhe em nome de todos - disse em voz alta. - Quero dizer-lhe, além disso, que nada até hoje nos impressionou tanto.
Ao proferir estas palavras, estalou nele um soluço. Outros mais choraram também. Saí para a rua por entre olhares húmidos e rudes apertos de mão.
Poderá um poeta continuar a ser o mesmo depois de passar por estas provas de frio e fogo?

Pablo Neruda, Confesso Que Vivi





I

Depois de Leres atentamente o texto, responde às questões. Selecciona as afirmações correctas:

1. O sujeito da enunciação:
a) narra uma experiência pessoal.
b) descreve a Vega Central.
c) conta a história de alguém que «um dia» o veio buscar «de automóvel».
d) analisa o seu quotidiano.

2. O texto é autobiográfico porque:
a) a sua temática é de carácter moralista.
b) relata aventuras e suas consequências.
c) o eu recorda vivências marcantes.
d) conta um episódio da guerra civil de Espanha.

3. Identifica quem «levava no bolso um exemplar do livro Espana en el corazón.
a) O emissor.
b) A pessoa que transportou o emissor.
c) Um trabalhador chileno.
d) Laferte.

4. O conferencista, ao entrar na sala, sentiu:
a) vergonha.
b) constrangimento.
c) estranheza.
d) alegria.

5. O público era constituído por:
a) desempregados.
b) trabalhadores.
c) adolescentes.
d) burgueses.

6. O auditório era:
a) uma «sala desordenada».
b) um mercado chileno.
c) o povo do seu país.
d) os governantes do seu país.

7. O emissor Leu poemas sobre:
a) o sofrimento provocado por um conflito armado.
b) a vida quotidiana em Espanha.
c) as dores provocadas pelo trabalho árduo.
d) um grande amor.

8. A mensagem do livro Espana en el corazón:
a) acalmou o público.
b) comoveu o público.
c) entristeceu o público.
d) exaltou o público.

9. No final da conferência o poeta sentiu:
a) problemas de consciência.
b) remorso.
c) responsabilidade.
d) decepção.

10. Selecciona, do texto, as expressões que evidenciam o seu carácter memorialista.


II

1. Considera a transcrição:
«Alguém veio um dia buscar-me de automóvel, fazendo-me entrar no veículo sem saber exacta¬mente para onde e ao que ia. Levava no bolso um exemplar do livro Espana en el corazón. Dentro do carro explicaram-me que estava convidado para fazer uma conferência no Sindicato dos Carregadores da Vega.»
1.1 Assinala as substituições lexicais.

2. Da frase «Sentados em caixotes ou em improvisados bancos de madeira, uns cinquenta homens aguardavam-me», selecciona uma catáfora de «uns cinquenta homens».

3. Refere o modo de relato do discurso utilizado no texto.

4. Identifica os diferentes locutores.

5. Reescreve a seguinte transcrição, usando outro modo de relato do discurso: «- Quero agradecer-lhe em nome de todos (...). Quero dizer-lhe, além disso, que nada até hoje nos impressionou tanto.»

6. Reescreve a seguinte frase, passando os pronomes pessoais da 1.a pessoa para a 3.a pessoa do singular: «Eu sentei-me por detrás da mesinha que me separava daquele estranho público.»

7. Apresenta antónimos de:
a) «amarrado»
b) «estáticos»
c) «imperturbáveis»
d) «impávidos»
e) «rudes»


III
Todos nós nos emocionamos.
Num texto autobiográfico, de 80 a 120 palavras, desenvolve a afirmação tendo em conta:
momentos inesquecíveis da tua vida;
identificação dos diferentes estados de espírito experienciados.