23.5.10

Fonógrafo




Vai declamando um cómico defunto.
Uma plateia ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E há um odor no ambiente.
A cripta e a pó, _ do anacrónico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
Lírios, lírios, águas do rio, a lua...
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, _ extática corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro - o cheiro de junquilhos,
Vívido e agro! - tocando a alvorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!

Camilo Pessanha


O subjectivo no domínio da percepção
(*) Note que o real da música no fonógrafo desperta, estimula a construção de outro real distinto do eu. Repare, também, no ritmo intersectado, criando ambiguidades, sinestesias. Há uma imitação da marcha militar, compassada, automatizada.

É a partir do modo como os sons se inscrevem no eu que este os transcreve, produzindo o texto.

1. Saliente a origem de cada um dos conjuntos de registos sonoros captados pelo eu.

2. Em cada um desses conjuntos, as sensações auditivas ligam-se a outras sensações. Exemplifique.

3. Que figura de estilo melhor exprime a associação aludida em 2.1 Dê exemplos.

4. Associe o percurso da agulha no disco ao percurso de escrita.