19.5.10

Carta




Meu amigo:
Sete horas da manhã. Pela janelinha sem vidro do meu quarto entra uma coluna de sol que empoeira de oiro o sobrado. As pedras, de que é construído este casebre, são mal unidas e toscas. Dum lado arrima-se aos penedos: sinto palpitar o coração dos montes. Do outro lado abre para o s panorama, píncaros sobre píncaros, fragas revolvidas e um ar tão fino que me farto de o beber.
Cheira bem. Pela fresta vejo pedras, montes cobertos de neve, o céu, coisas grandes e eter-nas... Porque fugi ao ódio, aos desesperos, aos mil nadas que complicam a vida?... Para ter este pão negro, que tão bem me sabe, este ar e esta paz que me penetram. Sou feliz. Vivo!...
Cismo e a paz é tanta neste triste casebre onde o pão não sobra, que o não trocaria pelas maio-10rés riquezas do mundo. O meu sonho corre, incha, transborda. Ninguém o tolda. Farto-me...
Esta gente que me rodeia, pobres cavadores, pastores, homens que se parecem um pouco com as árvores pela sua simplicidade e grandeza - e porque dão sombra também, são criaturas dife¬rentes das que tu conheces... Sombra, perguntas? Não é a bondade das árvores - a sua sombra? Nunca sentiste, junto a um velho sobro, a simpatia e frescura de que seus ramos se evolam?
Pois muitos homens dão sombra como as árvores: acolhem; estendem os ramos, protegendo os que se aproximam; a simpatia que de certas criaturas se exala é uma frescura só com-parável à frescura das árvores.

Raul Brandão, A Farsa



I

1. A observação do espaço físico é feita do interior para o exterior.
1.1 Descreve o casebre e enquadra-o na paisagem.
1.2 Indica as reacções benéficas que esse ambiente provoca no emissor.

2. Refere o motivo pelo qual o «eu» se encontra instalado naquele «triste casebre».

3 A pobreza é profunda, mas não seria trocada «pelas maiores riquezas do mundo».
3.1 Explica esta aparente contradição.

4. «O meu sonho corre, incha, transborda».
4.1 Identifica a figura de estilo que mais se evidencia nesta transcrição.
4.2 Caracteriza o estado de espírito do sujeito de enunciação.

5. Retrata o «eu» em «Esta gente que (...) rodeia».

6. Tendo em conta o registo utilizado no início da carta, classifica-a.
6.1 A carta está incompleta. Termina-a, aplicando os conhecimentos que possuis sobre a sua estrutura.


II

1. Na carta, existem referências concretas ao interlocutor.
1.1. Transcreve marcas deícticas que o comprovam.

2. Identifica os actos ilocutórios presentes nas expressões:
a) «Cheira bem»
b) «Sombra, perguntas?».
2.1 Explicita a sua intencionalidade comunicativa.

3. Selecciona, do primeiro parágrafo, os nomes no grau diminutivo.

4. Considera as expressões: «pão negro» e «pobres cavadores».
4.1 Esclarece o valor (restritivo / não restritivo) dos adjectivos.
4.2 Refere o grau superlativo absoluto sintético de: «tosca», «negro», «feliz», «pobre» e «grande».

5. Clarifica as diferentes acepções do vocábulo «pão» nas seguintes frases:
a) Comeu o pão que o diabo amassou.
b) O pão de centeio é o que mais aprecio.
c) Sai, de madrugada, para ganhar o pão de cada dia.
d) A cultura é o pão do espírito.
5.1 Constrói três frases onde utilizes a palavra «coluna» com diferentes acepções.


III

As férias de Natal chegaram. Vais passá-las em casa de um colega (num local do interior ou do litoral do país).
Elabora uma carta, dirigida à tua melhor amiga, contando-lhe os acontecimentos experienciados nesse espaço.